“Seu olhar penetrante não saia da minha cabeça... ele me olhava e eu o olhava. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez.”
Fevereiro. Segunda semana de aula. Estava na frente da escola, sentada no quinto degrau da escada, estava acabando o resumo do primeiro capitulo do livro de historia que deixara de fazer. Faltava meia hora para começar a aula. Estava tão silencioso... Tranqüilo. Mais não conseguia me concentrar... Meu pensamento fugia. Decidi parar um pouco. Gostava de ficar sozinha, podia pensar. Coloquei o livro sob minha mochila, abri a ultima pagina do meu caderno e comecei a desenhar. Adorava desenhar. Fazia varias paisagens de castelos. Enormes castelos, daqueles de filmes, com grandes estatuas de mármore, gárgulas, pontes levadiças, altas torres. Isso me fascinava. Mais o silencio não durou muito. Alunos já chegavam para a aula. Agora faltavam quinze minutos para bater o sinal. Peguei meu livro outra vez, tinha que terminar o resumo.
Ouvi um grito ao longe:
- Hey, Alice!
Alguém gritara meu nome. Era uma ofegante voz feminina que me parecia muito familiar.
-Fazendo lição de casa na porta da escola... Você não mudou nada.
Recordara de quem pertencia essa voz.
- Kristie!
Levantei e fui ao seu encontro.
- Kristie, o que você esta fazendo aqui? -Perguntei ainda não acreditando em sua presença – Como me achou? Pensei que você estivesse na casa do seu pai...
- E estava, mais ele me deixou ficar um tempo aqui na casa da minha avó. Vou ficar aqui em Nova Jercey ate me formar. Temos dois anos pra por o papo em dia. - rimos juntas.
Kristie era minha melhor amiga em Washington. Ela era alguns meses mais velha do que eu. Tinha uma pele clara e rosada. Seus cabelos eram curtos e de um preto azulado. Seus olhos eram castanho esverdeado, um pouco mais claro do que os meus. Éramos inseparáveis, ate que meus pais resolveram se mudar pra cá há dois anos. Não gostei muito da idéia de me separar de Kristie, ela era minha única e melhor amiga.
- Eu também vou estudar aqui e estamos na mesma sala, não é ótimo?
-Nossa, nem acredito!- ouvimos o sinal tocar – Vem, eu vou te mostrar onde e a sala.
Peguei meu livro, minha mochila, puxei Kristie pelo braço e entramos na escola. Queria muito conversar com ela, tinha muita coisa pra contar e ela devia ter muita coisa pra me contar também. Logo no corredor, a caminho do meu armário encontrei Zac. Ele era meu melhor amigo. Era alto, tinha lindos olhos azuis e um cabelo castanho claro. Era um dos melhores alunos da sala. E um dos mais bonitos também. Nos conhecíamos desde a sétima serie. Ele foi meu primeiro amigo aqui. Primeiro e único. Nunca fui de ter muitas amizades. As meninas eram muito metidas e os outros meninos muito infantis. Zac era diferente de todos.
- Senhor Zackary Dunst!- disse enquanto ia ao seu encontro, ainda puxando Kristie pelo braço.
Sempre brincamos de chamar um ao outro pelo nome completo quando nos reencontrávamos. – que brincadeira mais infantil.
- Senhorita Alice Whitlam!- Larguei o braço de Kristie por um instante e corri ate Zac que me abraçou tão intensamente que me tirou do chão. Ele tinha um carinho muito especial por mim e eu por ele.
- Por que você faltou semana passada? Era primeira semana de aula...
- Ainda não tinha voltado de viagem, fui chegar aqui ontem de tarde.
- Largando a escola para ficar viajando né?
- E, bem que eu gostaria, minha mãe que não deixa.
- Que bom, só ela mesmo pra te salvar.
- Engraçadinha... morri de ri.
Rimos um pouco.
- E então, perdi muita coisa?
- Não muita, pra hoje só tinha um resumo de historia. As primeiras duas aulas são dela, não vão dar tempo de você fazer na sala
- E, não vai dar...
- Mas eu acho que a professora vai aceitar o seu amanha...
- Espero que sim, mais do jeito que ela e não ponho muita fé. - rimos.
- Nossa quase me esqueci. Esta é Kristie Gere, minha melhor amiga. Mudou-se a pouco pra cá. Ela e de Washington.
- Oi Zackarie, muito prazer!
- O prazer e todo meu - disse ele beijando-lhe o rosto. Sempre muito educado. – Por favor, me chame de Zac. Amiga da Alie e minha amiga também.
- Esta bem! – rimos de novo.
Os dois já estavam se dando bem. Isso era bom... Entramos, todos já estavam na sala exceto a professora. Sentamos em nossos respectivos lugares e Kristie sentou-se em um lugar aparentemente vago... Do meu lugar consegui ver a professora. Estava conversando com um aluno do lado de fora da sala. Decidi continuar conversando. Virei-me. Sentava na penúltima carteira da quarta fileira. Zac sentava ao meu lado e Kristie sentava ao lado dele, uma carteira à frente. Conseguimos conversar por uns cinco minutos, ate a professora entrar seguida pelo aluno com quem conversara. Cabisbaixo, ele encostou-se na parede perto da porta, esperando que a professora o colocasse em algum lugar.
A sala aquietou-se.
- Temos dois alunos novos na sala. - a professora olhava atentamente para Kristie.
- Senhorita Gere, poderia vir ate aqui, por favor?
Kristie me olhou com uma expressão envergonhada.
- Senhorita Gere...
- Vai lá... – sussurrei.
- Esta bem... – disse Kristie, se levantando e indo ate a professora...
- Esta é Kristie Gere, veio transferida de Washington DC. Espero que a recebam bem. - concluiu ela. - Pode se sentar... - Kristie se sentou aliviada.
- E este é Joey Raitt, - ele se aproximou da professora - também veio transferido de Washington, quero que também o recebam bem. Joey, você pode se sentar aqui... – Disse ela apontando para a carteira atrás de Zac. Ele foi ao lugar onde a professora o colocou e se sentou, não pronunciou uma só palavra.
A professora então prosseguiu a aula.
- Que vergonha, tive que ir lá na frente da sala. Sorte que ela não pediu pra eu falar um pouco sobre mim ou algo parecido... - rimos.
A sala aquietou-se novamente. Agora por causa do enorme texto passado no quadro. A professora estava sentada em sua mesa chamando para dar visto no resumo do livro. – resumo o qual eu não terminara – Estava pensando em uma desculpa para poder entregar outro dia, mas como o Zac havia dito antes “do jeito que ela é não ponho fé”.
Ouvi alguém me chamar:
- Alie!
Olhei para o lado, era Kristie.
- Pega...
Ela jogou uma bolinha de papel.
-Não deixa ninguém ver...
Abri a folha de papel amassada tentando fazer o menor barulho possível:
“Alie, olha para trás disfarçadamente... o menino novo, Joey esta toda hora olhando pra você. Não deixe ele perceber”.
Olhei pra ela com um leve sorriso no rosto e disfarçadamente olhei pra trás. Joey estava olhando para mim... Nossos olhares se encontraram por um instante e eu desviei o olhar.
Seus olhos eram castanho escuro. Virei para frente e voltei a copiar o texto.
- Alie...
Sabia quem era e o que queria. Olhei para Kristie, ela mostrou mais uma bolinha de papel.
-Joga, pode joga...
Ela arremessou a bolinha, mais ela escapou da minha mão. Virei-me para ver onde tinha ido parar. Foi cair um pouco atrás de mim, perto de Joey.
-Ai não! - sussurrei. Não ia conseguir pegar do meu lugar, e se me levantasse a professora iria brigar. Pensei até em pedir para alguém pegar para mim,mas mudei de idéia, era melhor não arriscar E se Joey pegasse, se ele pegasse e lesse.Tenho certeza que no papel Kristie falava dele. Nem cheguei a conhecê-lo, o que ele iria pensar a meu respeito.
- Algum problema senhorita Whitlam? - disse a professora em alto e bom tom. A sala se virou e olhou para mim.
- Não senhora Parker, problema nenhum...
- Então vire para frente e copie o texto.
- Sim senhora.
Nossa, agora já era. Deixei a bolinha lá atrás e voltei a copiar. Estava torcendo para que ninguém a pegasse, principalmente Joey. Não conseguia prestar atenção no que estava escrevendo. Estava preocupada demais. Olhei para trás discretamente. Joey estava copiando o texto e a bolinha ainda estava no chão. Menos mal.
- Cadê a bolinha?- sussurrou Kristie.
- Caiu lá atrás. Deixa, quando o sinal tocar eu pego.
- OK.
Continuei copiando. Foram longos vinte minutos de espera, e de vês em quando me virava para ver se estava tudo bem. Percebi que Joey me olhava, mesmo ele tentando disfarçar. Finalmente ouvi o sinal tocar. Aguardei um instante ate a professora sair da sala para poder pegar o bendito papel. Levantei-me e o peguei. Estava aliviada. Comecei a lê-lo:
“Alie, você viu que ele estava te olhando? Ele é bonito não é ?acho que ele gostou de você. Ele é meio quieto, tem um ar de mistério. O jeito dele é estranho. O que você achou dele. Me responde.”
Nossa, sorte que ele não leu esse papel. Nem quero imaginar o que ele ia pensar. Ainda tinha que responder. Não sabia o que escrever. Não tinha reparado muito em seu jeito. Agora que Kristie comentara, realmente ele tinha um ar de mistério. Mais isso me agradava. Peguei o papel. O que eu podia responder?.
“Kris, não sei. Você acha mesmo que ele gostou de mim?.Ele parece ser legal. Eu gostei do jeito dele. E ele é muito bonito. Perece que você ficou interessada?- brinquei - me responde.”
Devolvi o papel. Logo viria uma resposta. Conhecia muito bem Kristie. Já tinha percebido o seu leve interesse em Joey. Mas se ela estiver certa? Se ele gostou mesmo de mim? Não podia negar. Não seria ruim.
- Alie. – Zac me chamara para entregar o bilhete de Kristie. Ela não se arriscaria em jogar o bilhete novamente.
“rara, engraçadinha. Eu não estou interessada nele não. Mas, o que você acha em ir falar com ele. Conhecê-lo. Eu posso ate puxar assunto pra você. Mas só se você for comigo...”
Não. Eu não teria coragem. Eu nem o conhecia. Ir falar com ele estava fora de questão.
“Não, eu acho melhor não... não tenho coragem. E melhor deixar assim como esta, depois, mais pra frente à gente pode ir falar com ele. Mas bem mais pra frente. PS: Joga este papel fora, ninguém pode ver”.
Pedi para Zac mandar o papel de volta para ela. O professor de matemática entrou na sala. Ele fechou a porta e apagou o quadro. Não tinha conseguido copiar a ultima parte do texto, teria que copiar de alguém depois. Tinha mais cinqüenta minutos de aula ate o recreio. Abri o meu caderno na ultima pagina, queria desenhar. Joey, Joey. Como Kristie avia dito, ele tinha um ar de mistério e eu não conseguia parar de pensar nele. Seu olhar penetrante não saia da minha cabeça... ele me olhava e eu o olhava. Nossos olhares se cruzaram mais uma vez.
Capitulo 2
“Comecei então a pensar em Joey e em tudo que acabara de acontecer. Mal conseguia acreditar. Joey era perfeito, ele não era como os outros, ele era... diferente”.
Finalmente o fim da terceira aula. O sinal tocara, graças a Deus. Não agüentava mais ficar dentro daquela sala. Fomos ate o refeitório e nos sentamos em uma das mesas. Não estava com fome. Só queria mesmo sentar e descansar.
- Alice, você não sabe segurar um papel direito, e se ele pegasse, ele nem nos conhece, o que ia pensar de nos?– disse Kristie se referindo a Joey e ao papel que caíra perto dele.
- Calma, eu peguei. Ele nem deve ter percebido...
- E bom mesmo...
Zac deu uma leve risada. Ele deve ter percebido o nosso interesse em Joey.
- Vocês meninas e seus bilhetinhos. O “ele” do qual você se referiu era o aluno novo não era? Joey. – Senti certo ar de ciúme em suas palavras. Zac sempre sentiu ciúmes de mim, e parecia sentir o mesmo por Kristie.
- Por favor Zac, sem ataque de ciúmes. – disse.
- Eu não estou com ciúmes! – retrucou Zac. – Mas era ele não era?
- E se fosse o que você faria?
- Nada, só estou perguntando...
Ficamos em silencio. O sinal tocara mais uma vez. Tínhamos de voltar para a sala de novo. O tempo passava muito devagar. Comecei a rabiscar no canto direito do meu caderno de Geografia. Estava cansada. Deitei a cabeça sobre meus braços. Cair no sono era quase inevitável. Adormeci. Devo ter dormido por uns vinte minutos. O professor estava ocupado demais para me notar. Em meu pouco tempo de descanso sonhei que estava em um quarto. Estava pouco mobiliado. Só avia uma cama, na qual eu estava deitada, uma pequena mesa ao meu lado e um armário perto da porta. As janelas estavam cobertas por uma enorme cortina vermelha. Em cima da mesa pedia ver uma vela acesa. Sua luz iluminava todo o quarto. Sentado na ponta da cama via uma silhueta. Acordei antes que pudesse ver quem era.
- Dormiu bem? – perguntou Zac com um tom irônico.
- Precisava dormir, estava cansada...
- Mais precisava ser aqui na sala?
- Tecnicamente não, mas... – fui interrompida. O sinal outra vez.
- deixa pra lá...
Ainda tinha mais uma aula. Queria ir logo para casa. Precisava dormir, ou melhor, dormir em um lugar mais confortável.
- Bom dia classe. Hoje farão um exercício em dupla. Vai valer nota e é para me entregar ainda hoje.- ela fez uma breve pausa.
- Coloquem seus materiais debaixo da carteira, eu vou escolher as duplas.
Aula da senhora Parker. Odeio historia. Olhei para o lado. Kristie me olhava meio insegura. Eu a entendia. Eu e Zac éramos os únicos amigos dela por enquanto, com certeza ela queria fazer dupla com um de nos. Eu não estava tão preocupada. Não me importava em fazer dupla com outra pessoa. A professora fez a chamada e começou a escolher as duplas. Ela falava nossos números aleatoriamente.
- Numero 2 e ... – cruzei os dedos – numero 18.
Suspirei aliviada. Olhei para Kristie. Ela estava com um sorriso de orelha a orelha. Com tantas pessoas na sala a professora foi me escolher para ser sua dupla. Ela tem muita sorte. Mas faltava Zac. Ele sempre fazia os trabalhos comigo. Esperei para ver com quem ele faria dupla.
- Numero 27, – prestei atenção, era o numero de Zac.- e numero 16.
- Quem e o numero 16? Perguntei para Zac.
- Não sei, vou ter que ir perguntar pra alguém.
- Espera ai. Kris, quem e o numero 16?
- Eu não sei, esqueceu que eu acabei de entra na escola.
- E verdade, esquece... Eu vou lá na frente e pergunto para professora.
Esperei a professora terminar de escolher as duplas e fui ate sua mesa. Ela olhou a folha de chamada. Voltei para meu lugar, tinha que arrumar minha carteira. Juntá-la com a de Kristie.
- Então, quem é o numero 16? – perguntou Zac, ele também tinha que arrumar sua carteira.
- Joey Raitt.
- O aluno novo? – Zac fez uma cara desapontada. Acho que ele não esperava fazer dupla com o aluno novo.
- O próprio.
- Então ta, fazer o que. – Zac se levantou e foi se juntar a sua dupla.
Coloquei minha carteira ao lado da de Kristie. A professora começou a escrever no quadro o que deveríamos fazer. Peguei uma folha em branco e escrevi nossos nomes e números. Tínhamos que formular 15 questões sobre a ascensão e queda do Império Romano. Abrimos o livro no capitulo dois e começamos a ler. Logo no primeiro parágrafo já consegui criar a primeira questão. Ia ser tão fácil. Kristie não parava de olhar para trás. Joey e Zac sentaram um pouco atrás de nos. Mal conseguia ouvir ele falando. Só ouvi alguns sussurros logo que juntaram as mesas.
- Para de olhar para trás! – sussurrei.
- Calma, só queria ver se Zac e Joey estavam se dando bem.
- Depois a gente pergunta para o ele.
- Ata, depois do ataque de ciúmes do Zac só por causa do papel ele vai nos contar tudo sobre Joey...
- O Conheço, ele vai nos cont...
Fui interrompida mais uma vez. - odiava isso - A professora deu uma leve pigarreada. Voltamos a fazer a lição. Tínhamos mais 14 questões para elaborar e responder. O tempo demorava a passar. Não estava com cabeça para fazer lição. Queria ir para casa. Casa. Só de pensar que eu teria que esperar mais meia hora pelo ônibus me desanimava. Meu bairro era meio longe da escola. Se pelo menos eu ainda tivesse meu skate. Mais ele quebrara na ultima vez que tentei descer um corrimão. Não quebrei só o skate mais a perna esquerda também. Ainda não gosto de lembrar... Finalmente estávamos terminando a lição. Ultima questão. Já estava quase na hora de bater o sinal. Entregamos a folha, guardamos o material e sentamos. Zac veio se juntar a nos.
- Zac, como foi o trabalho? – perguntei mais interessada em saber de Joey.
- Foi fácil, ele fez as questões e eu as respondi. Ele não é de falar muito, meio estranho.
O sinal tocou. Todos saíram da classe correndo. Esperei um pouco para deixar a sala. Todos pareciam animais correndo pelos corredores. Fui até meu armário acompanhada por Kristie e Zac. Guardei alguns cadernos e outros cacarecos que enchiam minha mochila, tranquei o cadeado e saímos da escola. Zac ia pra casa de bicicleta. Morava a menos de quatro quarteirões da escola. Kristie ia a pé, a casa de sua avó também era perto. Só eu que morava longe.
Sentei-me na escadaria da escola. Tinha tempo até o ônibus chegar. Como sempre, abri uma folha no meu caderno e comecei a desenhar. Envolvi-me completamente em meu desenho. O tempo passou muito rápido. Abri minha mochila a procura do meu celular. Não o encontrei em nenhum dos bolsos. Devia tê-lo colocado por acidente em meu armário. Entrei correndo na escola. Não podia ir para casa sem meu celular. A escola estava completamente vazia. Virei o corredor correndo e trombei com tudo em alguém. Fui direto pro chão. Era Joey. O que ainda fazia na escola? Bem,até que eu gostei de o encontrá-lo aqui. Só não precisávamos trombar assim.
- Ai! – exclamei – me desculpe, não o vi ai.
- Não foi nada, deixe-me ajudá-la. – ele estendeu a mão e me levantou do chão.
- Obrigada. – meu coração disparava.
- Eu sou Joey Raitt, nos estudamos na mesma sala.
- Muito prazer, eu sou Alice Whitlam.
- O prazer e meu. – disse ele com um leve sorriso no lado direito do rosto.
- Desculpa, estou com um pouco de pressa. Eu esqueci meu celular no armário e ainda tenho que pegar o ônibus. Você vai ter que me desculpar. – queria continuar lá, mais se demorasse mais cinco minutos poderia perder o ônibus.
- Quer que eu te de uma carona, eu te levo de carro?
- Não, não precisa. – é claro que precisa! - Eu vou de ônibus mesmo, não se incomode comigo. – nem consegui acreditar. Joey Raitt se oferecendo para me levar até em casa de casa de carro. Era bom de mais para ser verdade.
- Vamos, eu faço questão.
Ele tinha um bom poder de persuasão, não pude negar.
- Esta bem. Eu só preciso pegar meu celular e então podemos ir.
- Eu vou te esperar no estacionamento.
- OK.
Fui até meu armário, apanhei meu celular e fui encontrar Joey. O estacionamento estava quase vazio. Só tinha os carros dos professores e o dele. Logo o avistei. Estava encostado do lado esquerdo de seu carro, de óculos escuros. Uma cena quase perfeita. O sol o cobria por completo. Estava mais bonito do que antes. Ele tinha cabelos e olhos castanhos. Era um pouco mais alto do que eu. Sua pele tinha uma cor clara e bronzeada. Ele era forte. Meu coração pulsava. Caminhei lentamente ao seu encontro. Estava nervosa.
- E então podemos ir? Perguntou.
- Claro. – Meu coração pulsava ainda mais.
Ele me acompanhou ate o ouro lado do carro e abril a porta para mim. Eu entrei e ele a fechou. Era realmente educado. Estava cada vez mais impressionada. Ele entrou no carro e abriu a janela. Estava abafado lá dentro.
- Hum, obrigada mais uma vez. Não queria incomodar você.
- Você não incomoda. – disse ele com uma voz gentil e um sorriso fofo.
O olhei e dei uma leve risada. Nem parecia o garoto serio e quieto que via na sala.
- E então, onde quer que eu a leve?
- Am, bem, você pode me deixar em frente ao parque, eu subo a minha rua a pé.
- Como quiser.
Ficamos em silencio por alguns minutos. Olhei para fora da janela. O céu estava cheio de nuvens. Abri minha janela. Ventava um pouco, mais nada que me incomodasse.
- E então, há quanto tempo estuda aqui? – perguntou Joey
- A uns dois anos. Minha família se mudou para cá ano retrasado.
- De onde você era?
- De Washington DC. E você, é daqui mesmo?
- Não, eu morava em Washington mais eu nasci em Nova York.
- Sempre quis conhecer Nova York.
- E, lá é bem legal.
O assunto acabara por alguns instantes. Não sabia o que dizer. E nem precisei pensar muito.
- Quer que eu ligue o radio?
- Pode ser..
Ótimo, pelo menos não ia ficar um silencio total.
- Adoro essa musica.
- Também... – disse Joey aumentando o radio.
Agora estava perto de onde pedira para Joey me deixar. O radio ligado tornava a chance de algum assunto surgir quase impossível. Olhei para fora da janela. O tempo estava mudando. O sol que cobrira Joey no estacionamento estava encoberto pelas nuvens. Fechei a janela, agora ventava muito. Um vento frio. Abri minha mochila e peguei minha blusa e a vesti. Joey percebeu que eu estava com frio e ligou o ar quente. O olhei. Ele sorriu. Estávamos agora em frente ao parque. O carro parou.
- Obrigada por me trazer até aqui, foi muito gentil de sua parte.
- Não foi nada. – sorrimos um para o outro.
- Então, até... amanha.- disse.
- OK, até amanha. – Joey olhou para mim como se quisesse me dizer algo, mas ele não disse nada. Abri a porta do carro e sai. Ele me olhou pelo vidro da janela e saiu com o carro.
Segurei firme minha mochila e comecei a subir a rua. Estava a quatro quarteirões de distancia. Aprecei o passo. O tempo mudara completamente. O sol estava totalmente encoberto por escuras nuvens de chuva. Se eu não corresse ia acabar pegando chuva. Uma leve garoa começara a cair. Agora eu corria. Só faltava mais um quarteirão e eu estaria em casa. Comecei a me arrepender de não ter pedido para Joey me deixar na porta de casa. A garoa estava cada vez mais forte. Estava ficando encharcada. Finalmente cheguei em casa. Tirei meu tênis e o deixei atrás da porta. Fui direto para o meu quarto. Meu pai ainda não devia ter voltado do trabalho. Hoje era seu plantão medico, ia chegar super tarde. E minha mãe devia estar no quarto lendo ou assistindo televisão. Tirei algumas peças molhadas e fui para o banheiro. Tinha que tomar um banho quente antes que pegasse um resfriado.
Fiquei uns dez minutos embaixo da água quente. Deixei-a cair sobre meus longos cabelos castanhos. Aproveitei para lavar o meu rosto e tirar a maquiagem. Estava cansada e com sono. Logo depois do banho ia dormir um pouco. Fechei o chuveiro e me comecei a me enxugar. O banheiro parecia uma sauna. Coloquei uma roupa confortável e fui para o quarto. Agora chovia torrencialmente. Com uma toalha, dei uma secada rápida em meu cabelo e me deitei em minha cama. Comecei a pensar em tido que avia ocorrido comigo naquele dia. - muita coisa. Chequei a pensar que o dia não seria bom. Como tinha me enganado... Comecei então a pensar em Joey e em tudo que acabara de acontecer. Mal conseguia acreditar. Joey era perfeito, ele não era como os outros, ele era... diferente.
Capitulo 3
“Ele não podia ter feito isso comigo. Acabara de me colocar em um dilema onde não podia sair. Dilema no qual acabaria desapontando-o”.
Já era de manhã. Estava em meu quarto, deitada em minha cama. Olhei para o relógio. Estava atrasada para ir para a escola, se não corresse ia acabar perdendo o ônibus. Levantei o mais depressa que pude. Estava com a roupa que colocara ontem. Meus cabelos ainda estavam um pouco úmidos. Peguei meu prendedor e o prendi. Fui até meu armário e vesti as primeiras roupas que vi. Entrei no banheiro, escovei os dentes, passei uma base e um lápis de olho. Peguei minha mochila e desci. Do corredor já podia sentir o cheiro de omelete de queijo e bacon. Minha mãe estava na cozinha preparando o café e meu pai já devia ter ido trabalhar, não o vi em casa. Sentei-me à mesa e comecei a comer. Era meu café da manhã favorito.
- Bom dia Alie, dormiu bem?
- Dormi.
- Que horas você chegou ontem, não a vi entrar.
- Não cheguei tarde, você estava no seu quarto por isso que não me viu.
Terminei de comer e sai. Ainda estava atrasada. Corri até o ponto de ônibus o mais depressa possível. Já era tarde, o ônibus acabara de sair. Sentei-me na causada. Todo o meu esforço não serviu para nada. Ou quase nada. Um carro familiar parara em minha frente. Era Kristie.
- Alie, quer uma carona?
- Kris! Eu, eu quero sim. – sorte a minha ter esperado um pouco, mas de qualquer jeito ela me encontraria enquanto eu estivesse voltando para casa.
- O que você esta fazendo por aqui? – perguntei – Sua casa é na outra direção e é quase ao lado da escola.
- Eu fui até sua casa, mais a sua mãe me disse que você já tinha saído.
- Nossa, muito obrigada pela carona, você veio na hora certa.
Kristie tinha muita sorte, ela tinha o seu próprio carro e uma ótima mesada. Ela era filha única. Por isso os pais dela a mimaram muito. Eu não entendia o fato de meus pais não me mimarem tanto, mesmo eu sendo filha única também. Eu sentia um pouco de inveja dela, mais não uma inveja má. Ela tinha tudo o que queria e quando queria. Morava em uma casa muito legal lá em Washington. Tinha um quarto grande com uma enorme varanda que dava para ver toda a cidade. Era uma vista linda.
Amava Washington, fiz de tudo para continuar lá. Mas nada adiantou. Nem greve de fome, promessas loucas como largar a escola, fugir de casa. Só pioraram as coisas. Nos mudamos. Tive que aceitar. Mas agora eu estava começando a gostar daqui. Tinha um melhor amigo, e agora uma melhor amiga comigo. As coisas estavam finalmente dando certo.
E Joey? A chegada dele na escola? De certa forma, isso me fazia gostar cada vez mais de estudar.
Estava conseguindo conviver bem longe da minha cidade. Essa mudança de cenário estava fazendo bem para mim. Longe das cidades grandes, do barulho e do cheiro de fumaça que saia dos escapamentos dos carros.
Chegamos na escola. Kristie parou o carro em uma das vagas no estacionamento, que por sinal estava quase vazio. Abri a posta e sai. O sol estava brilhando e não tinha quase nenhuma nuvem no céu. Kristie travou as portas e caminhamos juntas até a entrada da escola. Estava tão silencioso. Podia ouvir o soprar do vento levando as folhas das árvores. Ouvi um estrondo. Kristie derrubara todos os cadernos que segurava no chão. Virei-me e abaixei para ajudá-la. Olhei rapidamente em direção aos carros e por um instante pensei em ter visto Joey, encostado em seu carro de óculos escuros. Não, não podia ser ele. Parei e admirei.
- Obrigada Alice. – não conseguia parar de olhar.
- Hey, Alice... Acorda.
- Desculpa, eu pensei ter visto.. – olhei em direção aos carros de novo e ele não estava mais lá. – deixa pra lá.
- Tudo bem... vem.
Nos sentamos na escadaria. Coloquei minha mochila um degrau abaixo junto com os cadernos e a bolsa de Kristie. Sentei-me e encostei nela .Estava ventando cada vez mais. Enfiei minhas mãos nos bolsos da blusa. Mesmo com o lindo dia que fazia, ainda estava frio. O vento gelado que soprava me fazia bater os dentes. De onde eu estava vi Zackarie chegar de bicicleta. Ele a prendeu na grade e veio ao nosso encontro. Ele estava com uma blusa com capuz e com as mãos nos bolsos da calça.
- Oi gente. – disse ele enquanto nos cumprimentava com beijo no rosto.
- Oi Zac.. – disse
Kristie deu um leve sorriso e continuou em silencio. Ela tremia um pouco. Zac sentou-se degraus abaixo e ficamos aguardando o sinal. A primeira aula era a de Educação Física. Eu até que gostava de fazer exercícios, mais não no frio. Kristie que não gostava. O jogo que ela mais odeia é queimada. Na sexta série, nós estávamos jogando queimada e logo no começo do jogo começamos a conversar. Nessa época nós nem nos conhecíamos.
Começara a chegar mais gente para a aula. Varias vozes juntas fizeram o silencio ir embora. O sinal tocou e todos que ali estavam começaram a entrar na escola. Esperamos um pouco, os corredores deviam estar insuportáveis agora. Vi o carro de Joey passar e entrar no estacionamento. Uns instantes depois ele passa por mim. Eu o olhei e ele retribuiu com um quase sorriso do lado direito da boca. Esperei um pouco até ele entrar e levantei.
- Vamos entrar? – disse.
- Já? Vamos ficar mais um pouco... – retrucou Kristie se ajeitando no lugar.
- O Professor Presser não gosta de atrasos em sua aula – disse Zac – é melhor a gente ir...
- Esta bem..
Kristie e Zac se levantaram e entramos na escola.
Fui até o meu armário e guardei alguns cadernos que eu tinha levado para casa. Kristie e Zac fizeram o mesmo. Fomos para os vestiários nos trocar. Algumas meninas ainda estavam se trocando quando chegamos. Abri o meu armário, peguei a minha roupa e entrei em um Box vazio. Quando acabei de me trocar esperei Kristie acabar também. Ela saiu do Box que estava com uma cara estranha.
- Odeio roupa de ginástica...
Ri. Como eu, ela sempre se preocupou com a aparência. Mais eu era um pouco mais obcecada do que ela. Nunca me achei bonita, então o único jeito que eu arrumei para me sentir bem era cuidar da aparência.
- Você acha que eu gosto?
- É, ninguém gosta...
Fomos para a quadra. O professor estava esperando todos chegar para passar o exercício. Fiquei conversando com Kristie e Zac enquanto esperava. Depois que todos chegaram, ele mandou nós nos dividirmos em grupos, íamos jogar queimada. Eu, Kristie e Zac ficamos juntos. Fomos para a quadra. Kristie foi a primeira a ser queimada, ela praticamente pediu para sair. Eu esperei um pouco para não ficar tão na cara. Depois de umas três pessoas saírem eu sai também. Zac ficou e jogou de verdade. Ele gostava de jogar, diferente de mim e de Kris. Sentamos no banco e esperamos. Joey ainda estava no jogo, ele também parecia gostar de jogar. Nenhuma bola o acertava, ele era muito bom. E ele acertou todos que quis queimar. Estava impressionada.
O jogo acabou. Voltamos para o vestiário e fomos nos trocar. Logo que acabei fui terminar de me arrumar e esperei Kristie acabar também. Guardei a roupa em uma sacola, iria lavá-la logo que chegasse em casa. Fomos para a sala. Zac já estava lá. Nos sentamos e esperamos o professor chegar.
A hora passou muito rápido. A ultima aula tinha acabado e já era hora de ir embora. Nada de especial acontecera. E foi assim a semana toda. O fim de semana foi incrivelmente longo. Nada para fazer, ninguém com quem conversar a não ser comigo mesma. Da janela do meu quarto, via as folhas amareladas caírem das árvores, puxadas para baixo pelo forte vento que soprava. Podia sentir aquela brisa fresca de um dia de outono. O céu, meio encoberto me tiravam a vontade de sair de casa.
Deitei-me na cama e adormeci. Voltei para o quarto em que estivera em meu ultimo sonho. Desta vez, ainda mais claro e nítido. Concentrei-me na pessoa que estava sentada da ponta da cama. Agora a enxergava com mais clareza. Era um homem. Usava um grande casaco marrom escuro. Ele estava olhando para baixo, com o rosto meio inclinado para o lado, como se estivesse com medo de me olhar. Eu tinha a impressão de que ele não queria que eu o visse, que eu o reconhecesse. Sem sair do lugar, me levantei e sentei. Olhava-o atentamente. Ele então se levantou. Tudo estava tão silencioso. Podia ouvir claramente a minha respiração meio ofegante. Um medo me invadira nesse momento. Segui seus movimentos com o meu olhar, enquanto ele caminhava calmamente até a janela. Desta vez as cortinas estavam abertas, deixando a mostra um lindo céu estrelado, com poucas nuvens. A lua estava diferente, tinha um tom avermelhado, vivo. Cor de sangue. Admirei a estranha cena por alguns instantes. Por um momento me acalmei. Ele parou em frente à janela e olhou para a estranha lua vermelha. Estava com um ar preocupado. Segurou a cortina com a mão, olhou para os lados como se estivesse se certificando de que estava tudo bem, e então as fechou. Sem falar si quer uma palavra caminhou até a porta e saiu.
Sozinha no quarto, fiquei mais tranqüila. Olhei para mim mesma e vi que estava de pijama. Vestia uma bela camisola de seda branca, muito confortável. Em meus braços havia varias marcas de arranhões, mas não doía. Levantei-me e calcei um par de sapatilhas que estavam no chão ao lado da cama. Caminhei silenciosamente pelo quarto, observando atentamente cada detalhe. Fui até o armário ao lado da porta e o abri. Havia vários vestidos em seu interior. Este deveria ser o quarto de uma mulher. Meu quarto. Mas quem era aquele homem? O que fazia aqui, sentado na cama onde eu estava?
Ouvi passos se aproximando. Corri até a cama e me deitei. Fechei os olhos e fingi dormir. Ouvi a porta abrir lentamente e passos virem ao meu encontro. Senti uma mão encostar em meu ombro e uma voz falar comigo, era a voz de uma mulher, e me parecia familiar.
- Alice, acorde...
Acordei assustada. O sonho parecera tão real, que esqueci que era um sonho. Abri os olhos.
- Mãe?
- Filha, dormindo essa hora, depois você não dorme a noite.
- Esta bem, eu já vou levantar.. – disse enquanto me espreguiçava na cama.
- O Zac esta lá em baixo. Ele veio te ver.
- Mande-o subir. Eu só vou lavar meu rosto.
- Ok.
Ela saiu e encostou a porta. Levantei-me, fui até o banheiro, joguei uma água no rosto e voltei para o quarto. Zac entrou.
- Alie?
- Oi Zac, entra.
- Oi... – disse ele com um sorriso no rosto - então, curtindo o fim de semana?
- Se dormir o dia todo quer dizer curtir, então estou... – rimos.
Ele olhava para mim de um jeito diferente. Meio intimidado. Sentei na ponta da cama, perto do meu travesseiro. Zac sentou perto de mim, mais ou menos no meio da cama.
- Então, você quer dar uma volta... uma... uma volta... aqui pelo bairro?
- Não sei, o tempo não está muito bom...
- Eu.. eu queria conversar com você... bem conversar com você a sós...
- Então nós p...
Fui interrompida por batidas na porta.
- Pode entrar...
- Filha, oi. Olha, eu vou até a casa da senhorita Martin, e eu volto mais tarde. Se você quiser comer tem ovos e bacon na geladeira, você faz uma omelete ou outra coisa...
- Tudo bem mãe... fica tranqüila... eu sei me virar.
- Ok, até mais tarde Alie, Zac...
Ela saiu e fechou a porta. Continuamos a conversar.
- Agora podemos conversar a sós...
- É... podemos...
- E então, o que você queria conversar comigo?
- Sabe Alie... – disse ele chegando ainda mais perto de mim. – nós somos amigos á quase três anos e... bem... a gente vem se dando tão bem que eu... é... eu... – ele gaguejava muito – Olha, o que eu estou querendo dizer é... – ele colocou a mão encima da minha – Eu te amo... – ele respirou fundo e continuou – você quer ficar comigo?
Meu coração batia o muito forte. Eu não fazia idéia que ele diria isso, e não fazia idéia do que eu iria dizer agora.
- Zac... eu... eu não sei o que dizer...
- Bem... diga “sim”.
- Olha, eu... bem... nós... somos amigos á tanto tempo que, eu não sei...
Eu não queria ficar com ele. Eu estava gostando do Joey agora. Eu não ia conseguir ficar com um gostando de outro...
- Joey, eu...– disse sem querer.
- Joey? – disse ele com um tom alterado.
- Que? – tentei desconversar.
- Não da pra acreditar...
- Zac, olha, eu...
- Olha? Eu estou tentando falar serio com você e você me chama de Joey!
- Desculpa, mas...
- Alie, desde que esse cara mudou pra cá você e a Kristie só pensam nele.
- Não precisa ter ciúmes Zac, eu amo você, você sabe...
- Você não me ama como eu te amo, pra você eu sou só um amigo.
- Você é praticamente um irmão pra mim...
- Eu não quero ser só seu amigo, eu não quero ser só um irmão pra você, será que você não entende?
- Eu entendo, mais é que...
- É que você gosta do Joey não é... – disse ele com voz de deboche. – vai lá ficar com ele então...
Ele se levantou rapidamente e se dirigiu até a porta.
- Zac espere! – gritei.
Ele parou em frente á porta e olhou para mim. Um olhar de raiva e ao mesmo tempo tristeza. Fui até ele.
- Zac...
-Olha, eu não quero ouvir você dizer que só gosta de mim como amigo. E também não adianta negar que gosta do Joey por que eu sei que gosta, eu vejo.
- Mas a gente é amigo á tanto tempo.
- Mas eu não quero ser só seu amigo! – disse ele com voz irritada – Alie você vai ter que escolher: Ou ele ou eu.
- Zac, por favor.
- É melhor eu ir embora... – disse ele saindo do meu quarto sem ao menos me olhar.
Vi ele ir sem poder dizer uma só palavra. Tudo que ele avia dito era verdade. Eu estava mesmo gostando de Joey. Mas eu também gostava dele. Ele não podia ter feito isso comigo. Acabara de me colocar em um dilema onde não podia sair. Dilema no qual acabaria desapontando-o
Capitulo 4
“Ele chegara aqui tão rápido que mal pude ver de onde ele veio. Ele pegou-me rapidamente no colo e correu tão depressa que o vento parecia cortar ainda mais meus braços. Estava fraca. Apaguei”.
Olhei pela janela do quarto e vi Zac. Ele pegou sua bicicleta e foi embora. Fiquei um tempo parada olhando para fora. Ainda tentava acreditar. Zac estava apaixonado por mim, eu ingênua nem percebi, ele vem na minha casa, se declara, e eu o dispenso por um cara que não quer nada comigo. Será que fiz a coisa certa? Ele era meu melhor amigo... Ainda é. E isso que torna as coisas ainda mais difíceis. Eu não estava com cabeça para pensar em uma solução para isso agora. Só queria desabafar com alguém. Resolvi ligar para Kristie e contar o que acabara de acontecer. O telefone chamou, chamou, mas ninguém atendeu. Esperei cair na caixa postal:
- Kris, é a Alie, quando ouvir esse recado me liga. Preciso muito falar com você. Beijos.
Agora era só esperar. Estava muito agitada, tinha que me distrair, me ocupar com alguma coisa. Desci e fui comer alguma coisa, estava com fome. Liguei a TV da sala, aumentei o volume e fui para a cozinha. Preparei um suco de laranja e peguei um pouco do bolo que minha mãe tinha feito hoje cedo. Sentei no sofá e por ali fiquei por mais ou menos duas horas. Ouço um barulho de carro vindo da garagem. Devia ser meu pai. Minutos depois, o vejo entrar pela porta de entrada.
- Pai? – perguntei
- Oi filha, tudo bem?
- Oi pai, eu estou bem e você? Tirou folga do trabalho?
- Eu estou um pouco cansado esses dias, então o Jonny – colega de trabalho – me substituiu por hoje.
- Hum...
Ele tirou o casaco, colocou a sua maleta encima do sofá e veio ao meu encontro. Ele me deu beijo na testa e sentou na poltrona ao lado.
- Onde esta sua mãe?
- Ela saiu. Esta na casa da senhorita Martin.
- Casa de quem?
- Da senhorita Martin, a vizinha do 301.
- Hum... E então filha como vai na escola? Faz tempo que não conversamos...
- Vai bem pai. E o seu trabalho?
- Vai bem também... – a gente nunca foi de conversar muito. Lembro-me que a ultima vez que nós conversamos foi a quatro anos atrás, quando eu tinha 12 anos de idade.
Ele se espreguiçou um pouco e se levantou. Deu um bocejo e caminhou até as escadas.
- Vou tomar um banho... – disse enquanto subia.
Fiquei mais uns quinze minutos na sala. Depois levei a louça para a cozinha e subi. Entrei no meu quarto e fechei a porta. Mesmo com as janelas fechadas, um vento frio me rondava fazendo-me bater os dentes. Deitei-me em minha cama, me cobri com os cobertores que estavam abertos e fiquei. Minhas mãos estavam muito geladas.
Um medo anormal percorreu o eu corpo. O mesmo medo sem sentido do meu sonho. Fechei os olhos. Podia ver claramente o homem sentado na ponta da minha cama, ainda tão sombrio e misterioso como antes. Não era muito comum ter o mesmo sonho duas vezes, mas eu queria saber quem era. Era um sonho, só um sonho, nada poderia me machucar. Abri os olhos. Meu quarto estava escuro. Anoitecera tão rapidamente que mal percebi. O vento uivava lá fora. Uma luz vinha diretamente no meu rosto. Era a lua cheia, tão majestosamente brilhante que parecia um holofote no céu. Ainda podia sentir o ar circulando rápido pelo meu quarto. Estava frio. Mas tinha que levantar. Arrumar minhas coisas para ir para a escola amanha. Escola... só de pensar que amanhã eu teria que ver Zac, isso já me desanimava.
O telefone tocou. Estendi o braço e o peguei.
- Alo...
- Alie, oi. Que aconteceu?
- Oi Kris. Você não faz idéia do que aconteceu...
- Fala, você esta me deixando preocupada...
- Não, não foi nada de ruim.. eu acho... Acho melhor te contar amanhã, agora já está muito tarde.
- Assim você vai me matar de curiosidade!
- É uma longa historia. É melhor pessoalmente.
- Está bem... Amanhã eu passo ai antes da escola. Você me conta no caminho.
- Ok.
- Até amanhã.
- Até amanhã.
Coloquei o telefone de novo na cômoda ao meu lado e me cobri até o pescoço. Tanto tempo se havia passado desde que Zac veio em casa que nem estava tão desesperada em desabafar. Melhor contar essa história para Kristie amanhã, com calma.
Ouvi a voz da minha mãe vindo lá de baixo. Ela tinha realmente demorado. Mas já era de se imaginar. A senhorita Martin adorava conversar. Martin... senhorita Lorena Martin. Ela era uma das nossas vizinhas mais simpáticas. Ela era solteira e morava duas casas depois da minha. De vez em quando ela saia com alguns amigos, mas ela era mais de ficar sozinha. Nunca entendi o por que dela nunca ter arranjado um namorado. Ela até que era bonita. Tinha os cabelos curtos de um castanho claro muito próximo aos meus. Seus olhos eram de um azul muito claro e sua pele bem branca. Ela veio morar aqui á pouco tempo. A mais ou menos um ano e meio. Ela sempre me olhou de um jeito estanho. Como se quisesse me dizer algo. Mesmo nós nunca termos nos falado...
O telefone tocou mais uma vez. Esperei alguém atender lá em baixo, mas continuou tocando. O telefone continuou tocando. Resolvi atender. Estendi o braço procurando-o sobre a cômoda. Sentei-me na cama ,ascendi o abajur, peguei o telefone e atendi.
- Alo.
Nenhuma voz se manifestou, só ouvia um estranho chiado.
- Alo?
Nada. Agora alem do chiado ouvia também uma respiração profunda. Tinha alguém na linha.
Uma voz cadavérica e roca chamou meu nome. – Alice... – Meu coração disparara.
- Quem, q-quem é – gaguejei.
- Alice... – repetiu a voz.
- Olha, se isso é algum tipo de brincadeira é melhor parar ou eu chamo a policia!
A ligação caiu. O vento rondava ainda mais forte pelo quarto. Arrepiei-me dos pés a cabeça. Larguei o telefone sobre a cama e corri para fora do quarto. Estava tremendo de medo. Desci rapidamente as escadas e fui direto para a cozinha.
- O que aconteceu Alice? – eu estava muito nervosa – Você esta branca...
- Nada mãe... só um trote.
- Que tipo de trote?
- Trote telefônico.
- Ligaram para o seu celular?
- Não mãe, ligaram aqui para o telefone de casa...
- Quando, agora?
- É mãe, agora...
- Nossa, mas o telefone nem tocou...
- Como não, eu deixei chamar para ver se ágüem atendia aqui em baixo...
- Não, você deve ter imaginado filha... o telefone não tocou...
- Mãe, eu ouvi muito bem. No telefone tinha um chiado estranho e uma respiração, e uma voz chamou o meu nome! Chamou o meu nome duas vezes, eu não imaginei isso! Eu tenho certeza..
- Olha filha, sua mãe esta certa, - disse meu pai, terminando de mastigar um pedaço de pão - eu estava aqui também e não ouvi o telefone tocar...
- Não pode ser. Eu to cansada, com somo, mas não to loca...
- Tudo bem então... Já passou. Senta e come alguma coisa. Tem suco de uva...Quer que eu faça uma omelete para você?
- Quero sim mãe. Obrigada.
Sentei-me na mesa com meus pais e jantamos.
- Você demorou na casa da senhorita Martin mãe...
- Eu sei, mas ela estava vendendo alguns cosméticos e eu resolvi encomendar alguns para mim...
- Hum... – disse de boca cheia.
- Também encomendei um perfume para você...
Dei um belo gole no suco de uva e respondi: - Obrigada mãe, o meu estava acabando.
- Eu sei, aquele era tão bom... Mas o que eu escolhi um ainda melhor...
- Ta bom...
Meu pai terminou de comer, pegou seu prato e como e os lavou. Aproveitei e coloquei o que tinha sujado na pia e fui indo para a sala.
- Alice, quando o seu pai acabar de lavar os pratos você vem enxugar.
- Está bem mãe... – odiava enxugar os pratos. – Quando ele acabar eu volto ai....
Liguei a TV e comecei a assistir. Dez minutos depois voltei para a cozinha. Acabei de secar tudo e voltei para a sala. Meu pai estava sentado no sofá assistindo TV, era melhor eu voltar pro quarto. Subi as escadas com calma e entrei no meu quarto. O abajur ainda estava aceso. Fechei a porta. Sentei sobre a cama e dei uma leve esticada nos cobertores. Coloquei o telefone na cômoda novamente e me deitei. Tentei relaxar um pouco antes de tomar banho. O estranho vento que antes circulava fortemente pelo quarto havia cessado, mas ainda ouvia o uivo do vento do lado de fora. Resolvi tomar banho agora, antes que pudesse pegar no sono. Levantei-me ,peguei meu pijama e fui para o banheiro. Coloquei minha roupa no gancho da parede e entrei debaixo do chuveiro. Deixei a água quente cair sobre meus ombros. Fechei os olhos. Lembrara do meu sonho. Sonho o qual eu queria sonhar de novo esta noite. Tinha muita coisa que, sendo o meu sonho eu não sabia. Onde eu estava? Quem era aquele homem? Porque eu estava cheia de arranhões e cicatrizes no braço? Porque ele me parecia tão preocupado com o fato de a lua estar vermelha? Perguntas que eu me fazia constantemente desde a ultima vez que sonhara este sonho.
Ouvi meu celular tocar. Fechei o chuveiro, peguei minha toalha, me enrolei e corri para fora do banheiro. Não lembrava onde deixara o celular. Procurei rapidamente pelo quarto. Estava em um dos bolsos traseiros da ultima calca que usara para sair. Atendi.
- Alo.
- Alo, Alie?
- Kristie?
- Oi, você me ligou?
- Não, por que?
- Tem uma chamada perdida aqui no meu celular e tem o seu numero...
- Não, eu não liguei não...
- Que estranho.
- É, muito estranho.. Você olhou certo?
- Olhei, eu não sou loca...
- Eu sei, mas eu não liguei... olha deixa quieto, vai ver que eu liguei e não lembro...
- Então tá, até amanha.
- Ok, até amanha.
Desliguei. Já tinha se passado tanto tempo que eu nem necessitava mais desabafar. Coloquei o celular em cima da cômoda e voltei para o banho. Liguei o chuveiro novamente e fiquei mais um tempo de baixo da água. De repente, um clarão de luz branca invadiu meus olhos obrigando-me a fechá-los. Notei que não ouvia mais o barulho da água do chuveiro caindo, e que agora estava vestida. Abri lentamente os olhos. Estava em meio a uma densa floresta de pinheiros. Estava anoitecendo. Um vento gelado me cercava, fazendo com que as folhas que estavam no chão levantassem. Olhei-me. Estava de jeans, tênis e uma blusa branca que anteriormente era de manga comprida. Agora estava rasgada e suja. Meus braços estavam ensangüentados, devia ter sido atacada por algum animal. A dor era quase insuportável. Minha cabeça doía como nunca. Ouvi ao longe passos rápidos e precisos, e uivos que deveriam ser de lobos. Estava sendo perseguida. Um medo profundo me invadiu paralisando-me por inteiro. Os passos estavam cada vez mais próximos. Tentei sair do lugar, mas as minhas pernas não me correspondiam. Entrei em desespero. Minha visão começou a embaçar e eu comecei a perder o equilíbrio. Iria desmaiar. Inesperadamente, um homem apareceu ao meu lado. Não tive forca para olhar para ele diretamente. Ele chegara aqui tão rápido que mal pude ver de onde ele veio. Ele pegou-me rapidamente no colo e correu tão depressa que o vento parecia cortar ainda mais meus braços. Estava fraca. Apaguei.
Capitulo 5
“...Tinha que estar perfeita. Hoje a noite era somente nossa, e nada nem, muito menos ninguém poderia estragá-la... exceto...”.
Abri novamente os olhos. Ainda estava no banho. O banheiro tinha virado uma verdadeira sauna. Fechei o chuveiro e peguei minha toalha. Não entendi na hora o que tinha acontecido. Estava acordada e... e sonhara? Isso nunca havia me acontecido. Vesti meu pijama e fui me deitar. Estava cansada e precisava dormir. Pra falar a verdade, dormir é o que eu mais tenho feito esses dias. Minha vida era praticamente: casa-escola-escola-casa. Não tenho saído muito. Deve ser por isso que eu ando tendo esses estranhos sonhos. Falta de atividade durante o dia. Minha vida estava muito monótona - tirando alguns acontecimentos e declarações não necessárias no momento – Precisava sair.
Apaguei as luzes. Deitada na cama, fiquei um bom tempo pensando, discutindo e criticando a mim mesma. Amanha iria para a escola e marcaria de ir ao cinema com Kristie e Zac. Ou, bem.. só Kristie.
Meus pais já deviam ter ido dormir. Estava tão silencioso... Tanto na rua quanto em meu quarto. Nem sabia que horas eram. Virei-me e tentei dormir. Alguns minutos se passaram e nada... Tentativa inútil. Não estava mais com tanto sono. Ouvi latidos seguidos por uivos ao longe. Gelei. Lembrara o meu sonho – se é que posso chamar aquilo de sonho – Passei a mão sobre meus braços. Estavam normais, sem arranhões. Estava mais aliviada. Ascendi o abajur e sentei- me na cama. Estava quente dentro do quarto. Levantei-me e fui abrir a janela. Voltei a sentar na cama. Uma leve brisa me refrescava. Ouvi um leve ruído no telhado. Como se pequenas patas estivessem andando lá em cima. De repente um gato preto cai de pé sobre a janela. A luz do abajur iluminava seus enormes olhos verdes. Ele abriu a boca e mostrou seus dentes afiados soltando um sibilo amedrontador. Peguei meu travesseiro e o coloquei em minha frente tentando me proteger. Arrepiei-me. Ele se virou de costas para mim e pulou para fora. Esperei um pouco e corri para fechar a janela. Olhei pelo vidro e o vi. Estava parado sobre o muro. Parecia estar protegendo alguma coisa, ou alguém. Sua aparência era assustadora. Fechei as cortinas e voltei para a cama. Olhei as horas em meu celular. Era quase meia noite. Tinha que dormir, amanha tinha aula. Enfiei-me debaixo dos cobertores e desliguei o abajur. Um tempo depois peguei no sono.
Batidas constantes na porta me acordaram horas depois.
- Alice, acorda, você perderá a hora.
Abri os olhos lentamente – Já vou levantar mãe, só mais cinco minutos.
- Vamos logo.
Virei-me na cama. Agora eu já tinha acordado, não pegaria no sono tão rápido. Decidi levantar. Peguei minhas roupas e fui para o banheiro me trocar. Passei um pouco de maquiagem e desci. Um cheiro de panqueca me fez ir direto para a cozinha. Estava morrendo de fome. Faltava menos de vinte minutos para o ônibus passar. Apressei-me.
Meu pai já tinha saído para o trabalho. Estava somente eu e minha mãe em casa.
- Alie, eu vou sair agora e vou passar em frente a sua escola, quer uma carona?
- Claro mãe!
- Aprece-se.
Tomei meu café correndo e sai em direção ao carro.
- Não está esquecendo nada?
- Nossa, é verdade, meu material! Espera ai mãe, já volto.
Subi correndo para o meu quarto. Logo que ascendi à luz pensei ter visto um vulto preto passar por mim em direção a janela, e atravessá-la. Corri e olhei entre ela. No telhado sob mim estava o gato. Ele olhou para mim e fugiu. Olhei para baixo e vi minha mãe já no carro a minha espera. Apanhei minhas coisas e desci correndo. Entrei no carro e saímos.
Ela me deixou na porta da escola e foi embora . Sentei- me na escadaria, abri um caderno e comecei a desenhar. Não tinha nada para fazer aquela hora. Gastei uma folha com só com rabiscos inúteis, que não se pareciam com nada. Notei um carro passar por mim depressa com uma musica um pouco alta para àquela hora do dia. Era Kristie, só podia ser. Amassei a folha, recolhi meu caderno e fui até o estacionamento ao seu encontro. Ela estacionou, desligou o radio e saiu.
- Kristie, vai acordar a vizinhança toda assim... – brinquei.
- Ah, não tava tão alto...
- Magina... – rimos – Vamos entrar vai...
Ela travou o carro e fomos para dentro da escola. Entramos e fomos para a sala. Éramos as únicas lá dentro. Deixamos as bolsas sobre as mesas e nos sentamos. Ficamos conversando por uns dez minutos, até que alunos começaram a chegar. O sinal tocou e todos foram se sentar. Ainda não tinha sinal de Zac ou de Joey. Estava meio ansiosa e amedrontada ao mesmo tempo. Não tive noticias de Zac desde o dia em que ele se declarou para mim.- Foi quando, há dois dias atrás? – Olhei para a porta e vi Joey acompanhado da srta. Parker – a professora -. Eles conversavam como no primeiro dia de aula, mas desta vez Joey estava com uma expressão agressiva e a srta. Parker parecia estar um tanto intimidada com isso. Pareciam estar discutindo. Ele entrou, passou por mim com um sorriso no canto da boca e se sentou. Instantes depois a professora entrou e sentou-se em sua mesa. A sala aquietou-se. Após fazer a chamada ela levantou-se e começou a passar matéria no quadro sem dizer uma só palavra. Copiei tudo sem questionar.
O sinal tocou novamente. Duas aulas de matemática. Mas não foram tão ruins. Passaram até que bem rápido.Era hora do intervalo. Sentei-me em uma mesa com Kristie.
- Então, agora conta o que aconteceu ontem! – disse ela com grande excitação.
- Ah Kris, o Zac...
- O que é que ele fez?
- Ontem ele foi até minha casa e... – suspirei – e se declarou pra mim...
- Sério! E como foi? O que ele disse?
- Calma! – fiz sinal para que ela falasse mais baixo – eu expliquei para ele que nos somos somente amigos e que eu gostava dele só como amigo...
- E ai?
- Ai que ele ficou chateado. E para piorar eu o chamei de Joey...
- Joey! – exclamou ela.
- Fala baixo idiota olha ele ali... – disse dando um tapa em seu braço.
- Ai! Desculpa... – sussurrou – você chamou ele de Joey? Nossa, ai ele deve ter ficado muito bravo...
- Você nem faz idéia. Ele começou a brigar e disser “Eu vim falar sério com você e você me chama de Joey” e “Você não me ama como eu te amo”. Eu fiquei muito culpada...
- Você ta mesmo gostando do Joey não é mesmo... – disse com um sorrisinho maléfico no rosto.
- Eu não, ele é só um amigo... nem isso, um conhecido...
- Sei...
- Continuando... – disse tentando voltar ao assunto principal no momento – depois disso ele veio dizendo que eu e você só falamos nele agora e disse que era melhor ele ir... E nem se quer olhou para traz...
- Será que ele faltou hoje por causa disso?
- Não sei, pode ter acontecido alguma coisa...
- Com Zackarie Dunst? Não... nada acontece com ele... a vida dele consegue ser mais monótona do que a minha... – disse.
Ela riu...
Olhei para o lado e vi Joey. Estava sentado em uma mesa quase perto de nós. Algumas meninas sentadas nas mesas ao lado não paravam de olhá-lo e dar sorrisinhos . Ele era, aparentemente o menino mais bonito da escola. Todas as meninas o queriam.
- Olha aquelas oferecidas olhando o Joey...
- É, mais parece que ele não ta nem ai para elas...
- Rara, elas já perceberam isso... elas estão quase escrevendo na testa “te quero Joey”... – eu ri. – mais nem assim ele ligaria... aqui nenhuma menina serve pra ele... só você Alie...
- Não viaja Kris, ele nem olha para mim...
- Sei... e então, ele já te ofereceu outra carona? – disse ela entre risinhos.-
- Não, ainda não... mais... é... eu te contei sobre isso Kris?
- É claro... é claro que contou, não se lembra? - bem, eu não me lembro de ter contado isso a ela. – Eu estou começando a acreditar que você precisa sair mais, está começando a esquecer as coisas... – é, devo ter contado e me esqueci...- deixa pra lá...
- É, deixa pra lá... eu já volto, vou comprar alguma coisa...
- Esta bem... eu vou ficar aqui...
Levantei-me e fui até a cantina. Por sorte não tinha muita gente, tinha duas pessoas na minha frente.
- Por favor, eu queria um trident de menta.
- $ 2.00
- Aqui, obrigada.
Abri e peguei um chiclete. Senti uma mão fria em meu ombro e uma voz falar perto do meu ouvido.
- Alice... – me arrepiei.
- Joey!
- Tudo bem?
- Tudo e com você? – disse meio surpresa.
- Tudo bem... e ai, ainda esquecendo as coisas no armário da escola? – disse ele brincando.
- Rara, estou tentando ser mais atenta... você quer um? – disse lhe oferecendo um chiclete.
- Não, obrigado...bem, o tempo não parece muito bom hoje, quer uma carona?
- Não, obrigada, não precisa se incomodar... – mais bem que eu queria.
- Então, você vai fazer alguma coisa hoje à noite? – espera, vou consultar minha agenda... e, olha que coincidência, estou livre...
- Acho que não...
- É que eu pensei de a gente ir ao cinema, ou a algum outro lugar, o que você acha?
- Pode ser...
- Então eu te pego...
- ... na rua que você tinha me deixado, pode ser?
- Pode, claro... às sete?
- OK.
- Até lá... – disse ele dando um beijo em meu rosto e saindo.
Meu coração batia muito forte. Mal dava para acreditar, ele, Joey Raitt, o menino mais lindo da escola, me chamando para sair. Era bom demais para ser verdade... Fui até a mesa onde Kristie estava e me sentei.
- Nossa, pensei que tinha morrido no meio do caminho...- disse Kristie.
- Engraçadinha, eu estava conversando com Joey...
- Sério, e o que ele disse?
- Ele me chamou para sair...
- “... não viaja, ele nem olha para mim...” , to vendo... bobona...
Nem consegui disser nada, ela estava certa... Mas eu nunca ia imaginar que ele ia querer alguma coisa comigo.
- Vem – disse – vamos, eu preciso passar no meu armário antes de ir para a sala.
- Já, ainda tem tempo até o sinal tocar... – disse ela se ajeitando na cadeira.
- Tem só mais dez minutos vai, levanta a bunda daí e vamos...
Ela levantou-se com muito custo e fomos até o corredor onde estava meu armário. Estava praticamente deserto. Só havia eu, Kristie e dois garotos – aparentemente bonitos daqui- que logo foram embora. Abri o cadeado e apanhei dois cadernos que estavam sob o enorme livro de matemática, que era extremamente desnecessário e só ocupava espaço no meu pequeno armário 30cm x 60cm.
- Vamos logo, estou cansada de ficar de pé. – murmurou.
- Fica quieta que você acabou de levantar, sua sedentária. – retruquei. – segura aqui que eu vou trancar o meu armário – disse praticamente jogando os cadernos sobre ela.
Peguei o cadeado e tranquei. Dei uma leve olhada em direção a janela. Não podia ser! Era aquele gato. O mesmo que esteve em meu quarto noite passada e aparentemente esta manhã. Ele me olhou e sibilou. Isso não era um comportamento normal para um gato. Ele parecia estar bravo comigo, ou coisa parecida. Arrepiei-me dos pés a cabeça, A presença desse gato estava começando a me fazer mal. Primeiro em meu quarto, depois aqui, ele deve estar me seguindo, só pode ser. Mas gatos não seguem meninas por ai. Era muito estranho.
Peguei os cadernos das mãos de Kristie e a puxei. – vamos sair daqui... – corri em direção ao banheiro.
- O que aconteceu Alie?
- Nada, vem...
Fomos depressa até o banheiro. Graças a Deus também estava quase vasio. Entrei em um Box e me sentei sobre o vaso sanitário. Ainda não me conformava. Pode parecer idiotice de minha parte mais de um tempo para cá coisas estranhas andam acontecendo comigo, coisas estranhas e assustadoras.
Fiquei um ou dois minutos ali até me acalmar, e então sai. Kristie estava me esperando do lado de fora.
- E ai, será que agora dá pra me explicar o que aconteceu?
- Nada, é que eu fiquei meio enjoada... só isso.
- Esta melhor agora?
- Sim, bem melhor...
- Então será que a gente pode ir para a sala, o sinal já vai tocar e eu quero sentar.
- Eu ein, parece velha, você só quer sentar.
- Ai Alie, me deixa...
Fomos para a sala. As ultimas aulas foram bem divertidas. Principalmente a aula de espanhol, adoro quando vem substituta. Parece que a aula termina mais rápido... Bem, mesmo assim fiquei meio arrependida de não ter aceitado a carona de Joey, estava tão cansada que só queria mesmo era me acomodar no estofado macio e confortado de seu carro importado. Importado... cada vez que eu penso em Joey me vem uma imagem de um cara rico, morando em uma mansão, andando pra lá e pra cá de carro novo. Mas isso é ótimo. É mesmo ótimo saber que um cara tão perfeito como Joey tenha se interessado por mim, e não pelas meninas populares do colégio.
Fiquei ainda mais arrependida quando o vi passar por mim em seu carro. Como eu queria estar lá naquela hora... Mas tive que me contentar com o acento duro e desconfortável do ônibus... Sorte que minha casa não é tão longe e não deu tempo de minha poupança começar a doer. Realmente, bancos de ônibus são muito desconfortáveis. Mas o lado bom é que ele para bem na minha porta. Ainda tive mais sorte, logo que pisei em casa começou uma chuva torrencial. Agora era implorar para que ela passasse até o meu encontro com Joey hoje à noite.
Logo que entrei em casa pude sentir um cheiro que me fez salivar. Lasanha de almoço, o dia estava cada vez melhor. Subi em meu quarto, deixei meu material sobre a cama, lavei minhas mãos e fui comer. Estava realmente muito bom. Lasanha é, definitivamente uma especialidade da minha mãe.
Depois do almoço, subi e fui me deitar um pouco. Toda a lasanha que eu comi tinha que ser digerida até antes das sete. Logo, tinha que pensar no que vestir hoje à noite. Tinha que estar perfeita. Hoje a noite era somente nossa, e nada nem, muito menos ninguém poderia estragá-la... exceto...
Capitulo 6
“Ele subiu sua mão do meu pescoço para o meu rosto. Olhei-o nos olhos mais uma vez e logo em seguida apaguei...”.
Ninguém poderia estragá-la... exceto... Exceto meus pais. Na verdade, mais minha mãe do que meu pai. Ele quase nunca estava em casa. Minha mãe odiava quando eu marcava de sair sem avisá-la antes. Eu odiava mais ainda por que ela ainda me tratava como uma adolescente de 12/13 anos. Mas eu não podia, de jeito nenhum faltar a esse encontro. Nem que eu tivesse que sair escondido. Mesmo eu não tendo coragem... nunca tive. Mas, para ela não ter do que reclamar, arrumei todo o quarto antes mesmo de ir falar com ela.
Depois de meia hora tentando dar um jeito na enorme zona que estava em meu quarto, fui falar com ela. Ela com certeza mencionaria o quarto antes de deixar eu sair... Bati na porta:
- Mãe? Posso entrar?
- Claro Alie, entra... – ela estava sentada na cama com o seu roupão de seda, com um tecido amarelo e uma agulha na mão. Estava assistindo a um programa de costura na televisão. Ela parecia calma e com um humor razoável.
- Oi mãe. Bem... eu estava pensando se... bem... você deixaria eu sair esta noite..?
- Com quem... – ela ergueu os olhos e olhou para mim.
- É... o nome dele é Joey Raitt, ele.. ele é um amigo da escola...
- Para onde vocês vão? – seu tom mudara. Ela parecia desconfiar que ele não era bwm um amigo de escola.
- Nós vamos assistir um filme no cinema...
- Vão só vocês dois?
- Bem, eu acho que sim... – se depender de mim é claro que sim – na verdade eu chamei alguns amigos e eles não deram certeza se vão...
- Não sei... você já arrumou o seu quarto? – pois é, como eu pensei...
- Já mãe. Ele está bem organizado...
- Que horas vocês vão?
- As sete, ele vem me buscar às sete. Na verdade eu vou esperar por ele na rua principal...
Ela pensou por alguns segundos e assentiu.
- Está bem... pode ir, mas eu quero a senhorita cedo aqui, entendeu?
- É claro mãe... – suspirei aliviada – então eu vou me vestir... – disse, saindo depressa do antes que ela mudasse de idéia.
Entrei em meu quarto. Até que foi uma ótima idéia tê-lo arrumado, estava bem agradável. Abri meu armário com excitação e peguei um punhado de roupas para provar. Decidi vestir um vestido preto de pregas que eu não usava faz tempo. Ele era um dos meus vestidos mais bonitos, e confortáveis. Entrei no banheiro e me maquiei, fiz apenas o básico, mas ficou ótimo para a ocasião. Coloquei minha gargantilha preferida. Tinha uma pedra bem no meio dela. Era azul e brilhava mais do que qualquer outra que eu já vira. Soltei meus cabelos e os penteei. Estava pronta.
Já eram cinco e quarenta quando fui olhar no relógio. A hora havia passado realmente rápido. Calcei minha sapatilha preta, apanhei minha bolsa de mão e sai do quarto. “- Tchau mãe, estou indo.” Disse antes de descer as escadas. Pude ouvir sua voz mesmo lá de baixo “- Tchau filha, tome cuidado.” Abri a porta da frente e sai.
O sol ainda não se pusera completamente. Ainda podia ver seu rastro no horizonte, deixando o céu com um tom arroxeado. As luzes da rua estavam acesas e iluminavam muito bem a rua. Desci até onde Joey me deixara quando me trouxera de carona. Ele ainda não havia chegado. Encostei-me em uma árvore e esperei.
Alguns movimentos bruscos sobre a árvore me obrigaram a olhar para cima. Não gostei muito do que vi. O gato estava lá. Sempre estava perto de mim. Sempre me seguindo, me vigiando. Ele andou delicadamente por entre os galhos seminus das árvores e antes de chegar à ponta, saltou para o chão. Permaneci imóvel enquanto o gato se aproximava. A cada passo meu coração acelerava. Ele vai me atacar, pensei. Ele olhou rapidamente para o lado arregalando seus enormes olhos verdes e com um sibilo, correu para a escuridão sob as árvores. Um carro parou mais ou menos perto de onde eu estava. Joey se aproximou de mim.
- Tudo bem?
Não consegui tirar os olhos da escuridão em que o gato avia entrado.
- Tudo... – olhei para ele. Seus olhos estavam fitando o mesmo que eu. – tudo bem.
- Eu acho melhor irmos agora. – disse colocando sua mão sobre meu ombro.
Dei uma ultima olhada nas árvores. Desta vez pude vê-lo. Seus olhos verdes iluminados pelos faróis dos carros. Aqueles olhos... sempre me olhando. Seu pêlo sumira na escuridão, deixando uma impressão de que somente o olhar estava em meio a ela. Que todo o resto se misturava às sombras. Depois sumiram.
Acompanhei Joey até o carro. Olhei-o mais uma vez, ele estava ainda mais bonito. Estava com um jeans preto, meio desbotado e uma camiseta. Ele usava também uma jaqueta de couro. Ele gentilmente abriu a porta para mim, como na primeira vez que estivera com ele. Entrei e partimos. O silencio reinou por quase todo o caminho, até que gentilmente ele começara um assunto.
- Que tipo de filme você gosta?
Estava meio aturdida mas respondi:
- Acho que comedia, aventura são meus preferidos... você?
- Também... – não parecia estar muito certo disso. – você tem algum filme em mente?
- Não, vamos ver o que está em cartaz...
- Certo, você escolhe. –
Assenti.
O silencio voltara mais uma vez, mas não durou tanto. Desta vez eu que começara um assunto.
- E então, de onde você era mesmo?
- Washington... capital... – murmurou, não querendo que seu passado virasse o assunto. – Está com fome?
- Não muita, estou bem. – voltei no que me importava para mim agora. Ele.- Então, porque decidiu vir para cá?
- Vim porque estava cansado de.. bem, tudo.- disse ele meio indiferente.
- Mas, você que escolheu vir para Nova Jercey?
- Vim para cá para resolver alguns assuntos.
- Bem, você vai ficar aqui até a se formar?
- Vou ficar aqui até conseguir resolver tudo e qualquer assunto pendente... – tinha um tom de mistério em suas palavras. Resolvi parar de fazer tantas perguntas, isso estava o incomodando um pouco.
Ele permaneceu parado, suas feições estavam serias e enrijecidas. O radio estava desligado e ele não pronunciava nenhuma palavra desde que parei de tentar fazê-lo falar, tentar fazê-lo conversar comigo. Conversar... por que ele me chamou para sair se mal conversava comigo. Nós mal nos falamos depois do dia em que ele me deu carona, há quase um mês. Um mês...
Fitei meu olhar para fora do carro. Estava uma noite linda. Sem nuvens. O céu era como um véu negro coberto por estrelas. E a lua cheia... era como um holofote no céu. Tinha um tom alaranjado, bem fraco.A noite estava... diferente. Avia algo estranho no ar.
Luzes azuis e vermelhas brilhavam sobre os carros de policia estacionados ao lado de um pequeno restaurante, perto do Parque Municipal de Nova Jercey. No pouco tempo em que o carro de Joey passou em frente do local, pude ver pessoas chorando ao lado de nacas cobertas, policiais com lanternas e cães farejadores entrando na densa mata do parque e repórteres entrevistando alguns policiais e pessoas que estavam no local. Algo tinha acontecido. Algo terrível, e algo me dizia que as coisas não iam parar por ai...
- O que será que deve ter acontecido? – perguntei.
- Não sei, mas deve ter sido alguma coisa bem ruim... – disse ele com uma calma assustadora.
- Tinha três macas. Estavam encapadas com capas pretas. – sussurrei. – Pessoas morreram.. pessoas morreram no parque.
- Pode ter sido algum animal...
- E matado três pessoas, três de uma só vez?
- Pode ser que tenha sido uma por vez, mas os corpos só foram encontrados hoje. Juntos. – suas palavras saiam calmas e com uma naturalidade aterradora. Este assunto começara a me incomodar. – Vamos mudar de assunto... – concluiu ele.
- Certo...
O silencio voltara a reinar entre nós. Não tínhamos o que conversar, e ele parecia não estar muito a fim de puxar um assunto.. qualquer que fosse. Ficamos assim até chegar à porta do cinema. Escolhemos um filme de comedia que parecia ser um pouco idiota, mas pelo clima que estava à noite, foi o melhor que estava em cartaz.
Nos divertimos muito durante o filme. O tenso clima que pairava sobre nós se decepou quase por completo. Mas mesmo assim ele sempre mudara de assunto quando eu tentava falar sobe seu passado. Ele escondia algo.
Antes de me levar para casa, Joey e eu saímos e simplesmente andamos pelo centro. Estava praticamente deserto. Somente estavam andando na rua algumas pessoas que trabalhavam em suas lojas até tarde. Continuamos andando, e ele não dissera nada. Tudo estava completamente deserto agora, e eu estava com medo. Ao longo da rua havia varias árvores grandes e com uma aparência grotesca, e entre algumas casas havia becos escuros. Becos sem saída.
Estava cada vez mais assustador. Eu queria ir embora, mas ao mesmo tempo queria estar com Joey, ao seu lado, não importava onde. O frio tomou conta de mim, não trouxera minha blusa e naquele dia a frieza de Joey me assustara um pouco. Queria abraçá-lo , queria que ele fizesse o frio passar.
- Estou com frio... – disse entre dentes. Ele passou seu braço sobre mim, do jeito que eu queria. O medo havia passado um pouco, e eu estava ficando mais quente.
Ele não falava nada, simplesmente me olhava.
A cada passo, parecia que a noite ficava mais densa, profunda. O vento sussurrava para eu voltar, mas eu ignorei. Comecei a ouvir uns sons estranhos. Algumas vozes. O medo então voltara. As luzes da rua começaram a piscar deixando-a ainda mais assustadora. Passamos em frente a um dos becos. Havia alguém lá. Esse alguém não estava sozinho. Parecia que ele estava atacando alguém. Era uma mulher. O rosto dele estava virado e inclinado, pegando o pescoço da moça. As luzes que piscava não me deixaram identificar quem eram. Ele levantou o rosto e olhou para nós. Suas mãos largaram a mulher e ela caiu no chão. Imóvel. Ele passou a mão sobre a boca e depois a limpou na calça. Uma raiva me percorreu por completo. Não só pelo fato dele ter machucado aquela pobre moça, mas também por eu não podê-lo identificar. O máximo que eu podia ver naquela hora era seus olhos. Estavam vermelhos como brasa. E me encarava incansavelmente.
Olhei para Joey, ele estava imóvel. Seus olhos fitavam a cena com raiva. Ele tirou o braço que ainda estava sobre mim e colocou-o em minha frente. Cada movimento que ele fazia era com muita calma e precisão. O homem ainda me fitava. Ele deu um passo para frente com calma. Pude sentir a raiva fumegando em Joey. Suas mãos estavam frias.
- É melhor sairmos daqui. – disse ele.
Assenti.
- Vocês não vão a lugar nenhum. – disse o homem, empurrando o corpo que ainda jazia no chão, e se aproximando ainda mais de nós. Sua voz soava familiar.
De repente, Joey me empurrou com forca para o chão e correu para cima do homem com uma rapidez inacreditável. De onde eu cai pude ver o homem correndo para cima de Joey e o derrubando no chão. Ouvi um som terrível, parecido com um guincho de algum animal, mas dez vezes mais forte. Era quase insuportável. O homem então, estava em cima de Joey, mostrando seus caninos extremamente grandes. Minha visão estava embaçada e fraca. Havia batido a cabeça na hora da queda. Eles continuavam brigando, um sobre o outro, rolando no chão. Isso estava saindo do controle. Eles batiam e esbarravam nas latas de lixo e as derrubavam. De repente as luzes que piscavam se apagaram por completo. Agora somente a luz da lua os iluminava. Podia ouvir o som deles batendo nas paredes e voltando para o chão que tremia a cada queda. . Comecei a me arrastar para trás tentando me apoiar em alguma coisa para conseguir me levantar.
Ouvi um estrondo e depois tudo silenciou. Meu coração batia muito rápido e minha respiração estava ofegante. O vento estava ainda mais frio e gélido. O medo estava rondando o ar a minha volta. Ouvi passos vindo em minha direção, minha respiração congelou e depois mãos frias agarrarão meu pescoço com força me levantando do chão. Pude ver seus olhos. Eram de um azul estranhamente familiar. Ele chegou os lábios rentes ao meu pescoço e rosou seus dentes afiados nele. O homem então me soltou fazendo-me cair no chão de novo. Minha gargantilha havia se soltado e algo cortou meu pescoço. Ele ardia muito.
Pude ouvir o homem se afastando. Não ouvi sinal de nenhum outro movimento no beco. Nem do homem misterioso e nem de Joey. Minha visão enfraquecera ainda mais e estava começando a ficar nauseada. Minha respiração começara a voltar, mas ainda estava instável. Pude ouvir o respirar profundo e dolorido de Joey. Ele se apoiou nas latas que estavam no chão e se levantou. Ouvi seus passos mancos virem em minha direção, e sua mão fria encostar-se em mim; encostando-se ao meu pescoço recentemente ferido. Não consegui conter um leve suspiro de dor.
- Alie, o que aconteceu? O que ele fez com você?
- Meu pescoço – murmurei com dificuldade – ele...
Não consegui descrever naquela hora o que tinha acontecido. O que ele tinha feito, mesmo tudo ainda não se encaixando muito bem. Olhei Joey nos olhos, visíveis pela luz do luar que vinha diretamente em seu rosto. Ele subiu sua mão do meu pescoço para o meu rosto. Olhei-o nos olhos mais uma vez e logo em seguida apaguei...
Capitulo 7
“Fechei os olhos. Só conseguia pensar em uma pessoa agora. Lagrimas caíram de meus olhos; - Joey... – sussurrei.”.
Abri os olhos. Estava em meu quarto, deitada. Como chegara lá? As coisas ainda estavam confusas em minha mente. Não me lembrava claramente do que me acontecera. E Joey? Onde ele estava? Como ele estava? Quem era aquele homem? Aquele homem... seus olhos... sua voz... tudo era estranhamente familiar. O que ele havia feito com aquela moça? Eram tantas perguntas. Todas elas rondando na minha cabeça. Todas de uma vez só.
Alguém batera na porta. Abri a boca no intuito de dizer que entrasse mas nada saiu, só um som rouco.
- Filha? – era minha mãe. – Que bom que já está acordada. – ela sussurrava – Como você está se sentindo minha querida?
- M..mãe? – dei uma leve tossida. - O que aconteceu? E Joey? Como ele...
- Calma filha... ele esta bem... – disse ela, se sentando na beira de minha cama. – Ele está lá em baixo, seu pai está fazendo alguns curativos nele.
- Curativos? Como ele está? Está muito machucado?
- Calma... eu já disse, ele está bem... Ele só tem alguns arranhões e alguns cortes. Ele contou mais ou menos o que aconteceu.
- Eh, eu não me lembro de muita coisa...
Ouvi batidas na porta.
- Entre – disse ela.
Era meu pai. Ele entrou no quarto seguido por Joey. Ele estava com alguns curativos em seu rosto, e parecia um pouco abatido. Estava pálido. Sua pele clara avia ficado branca e ele parecia fraco. Acho que o que aconteceu não foi nenhuma bobagem. Meu pai nunca saiu do trabalho no meio do expediente. A coisa toda devia ter sido séria.
- Pai! – disse, tentando me por sentada.
- Calminha ai senhorita, você ainda não esta em condições de se sentar sozinha.
- O que aconteceu... você nunca sai do hospital antes do final do expediente...
- Eu tinha que ver como você estava. Sua mãe me ligou dizendo que você tinha chegado em casa desmaiada... – ele fez uma pausa – Fiquei preocupado...
Dei um leve sorriso a ele e em seguida olhei para Joey, que continuava em pé.
- Joey, o que aconteceu, você está bem?
Ele me fitava por cima do ombro do meu pai com seriedade. Seu olhar penetrante emanava uma enorme preocupação sobre mim.
- Fique tranqüila, estou bem... O que importa agora é que você está segura agora.
- Mas, o que é que me aconteceu? – perguntei insistente.
- Eu, bem... vou deixar vocês a sós um instante. – minha mãe deu um sorriso quase forçado. Ela se levantou da cama e levou meu pai com ela para fora do quarto.
A sós, Joey e eu podíamos conversar com mais tranqüilidade. Ele se aproximou de mim e se sentou onde, antes, minha mãe sentara. Impulsionei-me para cima e permaneci levemente sentada.
- O que foi que aconteceu? Eu me lembro algumas coisas, mas...
- Calma; Não aconteceu nada de mais... – ele desviou seus olhos dos meus e ficou mirando o teto. – Nós saímos para dar uma volta depois do cinema e quando estávamos passando por uma rua mais silenciosa... e, é... dois caras vieram pra cima da gente... Bem, para cima de mim. Eles começaram a mexer com você e nós começamos a discutir. A gente começou a brigar e um deles empurrou você para o chão. Você bateu a cabeça e... bem... desmaiou. Depois eu a trouxe para casa.
- Não... – disse incrédula – não foi isso que aconteceu não. Eu vi, eu vi um homem, e ele matou uma moça, e quase nos matou. Quase te matou. Você estava me abraçando e depois me empurrou para o lado. Me empurrou e depois correu... correu numa velocidade inacreditável. Eu vi! Ele tinha dentes pontudos... como os de um...
Ele deu um leve riso.
- Você deve ter batido a cabeça com mais forca do que pensei... – disse ele meio debochado.
- Joey, o que aconteceu... de verdade. Eu quero a verdade. – insisti.- Eu sei que não eram dois caras... Eu vi... eu vi aquele homem e ele... – coloquei a mão em meu pescoço, passando o dedo sobre o corte recém aberto. Peguei meu cabelo num coque e mostrei o corte a ele. – ele fez isso...
Joey fitou meu pescoço com os olhos semi fechados. Ele chegava cada vez mais perto de mim. Joguei o cabelo para o lado oposto da ferida e olhei-o nos olhos, mas seus olhos ainda fitavam meu pescoço. Ele colocou seus dedos frios sobre o corte, e eu não consegui segurar um suspiro de dor. Ele se afastou um pouco, desviando o olhar.
- Ele também levou minha gargantilha... Isso não faz nenhum sentido. Ele podia ter me roubado o celular, ou a bolsa...
- Alice... – ele me olhou nos olhos – eu queria que essa história ficasse entre nos... Bom, pelo menos por enquanto... – Ele pegou minhas mãos.
- Mas por que? Você mesmo disse que eram somente dois caras, não foi? É muito normal isso, não tem porque ficar só entre nós...
- Por favor Alie... - ele fez uma pausa – Eu sei... Não eram dois caras, e eu sei que você também sabe, mas...
- Quem era... ou melhor, o que era aquele homem?
O silencio tomou conta do quarto. Ele parou e olhou em direção às suas próprias mãos por um instante.
- Você não está com sono, foi uma noite e tanto para você?
- Não... estou muito bem acordada..- disse, me ajeitando melhor na cama. – E você?
- Bem, estou um pouco cansado... – olhei-o nos olhos, mas ele desviou olhando para a porta. Ele continuava sentado, porém mais perto do que antes. Ele pousou a mão no edredom sobre meus pés. Depois, alguém bateu a porta.
- Joey, está tarde, você não quer dormir aqui? – disse minha mãe, com um cobertor e dois travesseiros nos braços, quase alcançando seu queixo.
- Não... não – disse ele se levantando rapidamente. – eu não quero incomodar...
- Imagina, você não é incomodo algum...
- Não, não sra. Whitlam, eu acho melhor eu ir para a casa...
- Eu acho que está tarde para você sair sozinho de carro. – disse fitando o com os olhos.
Estava muito tarde, e com esse homem à solta, era meio perigoso. Queria que ele ficasse. Queria que passasse a noite aqui, ao meu lado. Talvez, se ele continuasse aqui comigo por mais algum tempo ele conte o que realmente aconteceu.
- Eu não acho perigoso... eu, eu vou indo então.
– Perigoso? – disse espantada. Mas ele fingiu não ouvir. Ele olhou para mim mais uma vez e se dirigiu para a porta.
- Até amanhã.- disse ele com um sorriso leve no rosto.
- Bem, é você quem sabe... – disse minha mãe.
Continuei na minha cama e vi Joey sair pela porta acompanhada de minha mãe. Voltei a me deitar. Logo em seguida, pude ouvir o roncar de carro novo vindo de fora, e foi se afastando cada vez mais. Depois minha mãe subiu as escadas e entrou no meu quarto.
- Oi filha... bem, ele já foi. Esta na hora de você dormir, você teve uma noite agitada. – ela pegou o cobertor e me cobriu, depois me deu um beijo no rosto, apagou o abajur e saiu
Permaneci deitada, do jeito que minha mãe tinha me deixado. O quarto estava completamente escuro, e eu não enxergava um palmo a minha frente. Fiquei olhando em meio à escuridão, procurando me lembrar com mais clareza do me acontecera àquela noite. – estava com Joey, e estava frio. A noite tinha um clima singular, e eu estava com medo. Medo de alguma coisa... Mas não consigo lembrar do que. As luzes da rua piscavam .Depois... depois passamos em frente a um beco e... tinha um homem. Ele, ele de algum jeito matou aquela mulher. Ela caiu inerte no chão. – um arrepio me percorreu naquela hora. Ele matou aquela mulher... – Depois ele veio atrás de nós... Ele queria nos matar também. Joey me jogou no chão e eles começaram a brigar. Eles rolavam no chão. Aquele homem... os dentes dele... eram como os dentes de um gato. Pontudos e afiados. – não consegui me lembrar com mais clareza do que aconteceu depois - As luzes que piscavam se apagaram e eu não consegui ver mais nada. Então o barulho de briga parou e alguém veio até mim. O homem... Ele me pegou pelo pescoço, me levantando e depois me atirou no chão de novo. Alguma coisa cortou meu pescoço que começou a arder como nunca. Depois tudo era como um borrão...
Algum tempo depois, adormeci. Estava em meio a um sonho – ou melhor dizendo, um pesadelo. – Estava em um lugar escuro, como se fosse um deposito bem grande. Estava pouco iluminado, mas conseguia ver tudo a minha volta. Tinha alguém comigo. Virei-me lentamente e o vi. Zac estava ali, parado ao meu lado. Ele tinha uma aparência diferente. Estranha. Estava pálido, como se toda a sua cor se fora, e ele brilhava com o a luz do luar que entrava pelas janelas quebradas. Seu rosto estava rígido e uma certa malicia se fundia a ele. Seus olhos azuis estavam dilatados e me olhavam fixamente. Ele se aproximou de mim e afastou o cabelo que caia sobre meu pescoço. Seus olhos então se fixaram no corte que ali tinha. Eu ainda podia senti-lo formigando. Ele voltou a me olhar nos olhos e abriu um sorriso malicioso, que deixou a mostra seus dentes, estavam brancos como perolas e eram pontiagudos. Um medo cintilou sobre mim.
- Porque me trouxe aqui? – disse.
Ele passou a mão em meu rosto e chegou ainda mais perto de mim. Permaneci imóvel, minha respiração ofegava.
- Está com medo? – disse ele em um tom debochado. – Está com medo de mim, Alie?
- Porque você me trouxe aqui? O que você quer?
Ele se afastou e começou a me rondar como um lobo cercando a sua vitima. Continuei seguindo-o com os olhos. Ele se afastou ainda mais, se misturando à escuridão. De repente, ele sumiu por completo. Olhei desesperadamente para os lados tentando localizá-lo. Ouvi sua voz ao longe, como um eco “O que eu quero...? Eu quero você...” . Continuei olhando a minha volta a sua procura.
- Apareça! – gritei.
Ouvi risos ao meu redor, estavam me fechando em meu próprio pavor. Meus olhos se encheram de lagrimas, que caiam sem meu consentimento. Parei e olhei para uma das janelas quebradas. Dela, pude ver o céu estralado e o luar incandescente. O vento balançava as folhas das árvores do lado de fora. A noite tinha um ar fúnebre e misterioso.
Olhei para baixo rapidamente ao sentir uma respiração vinda de trás de mim. Seus lábios tocaram meu pescoço num beijo. Arrepiei-me dos pés a cabeça. Ele abriu a boca e encostou seus caninos sobre meu corte. Senti uma dor imensa que paralisou meu rosto, em seguida algo escorreu pelo meu pescoço. Ergui a mão e tateei-o para ver o que era. Senti algo sob a ponta de meus dedos. Olhei para minha própria mão enquanto a dor amenizava. Era sangue. Podia senti-lo saindo de mim, sendo sugado. Ele passou seu braço em mim me envolvendo, me trazendo ainda mais perto dele. Podia sentir a sua respiração acelerada, agora se normalizando, como a de um animal faminto saciando sua fome.
Então ele tirou os dentes cravados no meu pescoço e se afastou. Virei-me lentamente e o encarei. Ele estava com os lábios e dentes manchados com o meu sangue e seus caninos estavam ainda mais longos do que antes. Seus olhos estavam fixos em mim com uma expressão maquiavélica, e tinham um tom avermelhado vivo, que brilhava com a luz da lua. Ele lambeu lentamente a boca e depois passou as costas da mão sobre ela, para limpar os vestígios de sangue.
- Estava realmente ótimo... – disse ele.
- Você é desprezível... – disse com dificuldade, depois fui cedendo e cai no chão. Deitei minha cabeça no chão com cuidado. Meu pescoço ainda latejava e eu sentia a falta de sangue. Estava fraca. Ele se aproximou de mim e sorriu.
- Vou ver Kristie agora, não saia daí... – ele sussurrou. Depois as luzes se apagaram e ele sumiu na escuridão. – ou eles o pegaram... - sua voz era um eco apavorante. Lá de fora, podia ouvi uivos de lobos, e eu estava presa aqui. Se eu sair, eles me pegaram...
Fechei os olhos. Só conseguia pensar em uma pessoa agora. Lagrimas caíram de meus olhos; - Joey... – sussurrei.
Capitulo 8
“Fechei os olhos. Só conseguia pensar em Joey. Lagrimas caíram de meus olhos; - Joey... – sussurrei.”.
- Alice... – ouvi uma voz chamando meu nome. – Alice...
Abri os olhos e me pus sentada rapidamente. Meu quarto estava completamente escuro. Tateei o móvel e liguei o abajur. Não tinha ninguém. Coloquei minha mão em meu pescoço. Estava ardendo, o corte ainda estava lá, mas parecia que tinha sido aberto novamente, e estava sangrando um pouco. Levantei e fui para o banheiro. Olhei-me no espelho. O corte estava mais feio do que eu pensava. Abri a gaveta e peguei algodão e esparadrapo. Lavei-o e fiz um curativo para parar o sangramento. Guardei tudo novamente e voltei para o quarto. Coloquei o cobertor na ponta da cama e me sentei. Imagens vinham em minha mente como flashes. “Eu vou ver a Kristie agora. Até amanha...”. Fiquei apavorada. Podia ser só um sonho... ou não. Levantei depressa e vesti a primeira roupa que vi pela frente. Peguei meu celular, era quase uma e meia da madrugada.
Abri a porta do meu quarto. Estava tudo escuro e silencioso. Desci as escadas cautelosamente. Peguei a chave reserva e sai. A rua estava completamente deserta e as luzes dos postes velhos estava fraca. Fui em direção à casa de Kristie. Não era muito longe da minha. Eu sabia um atalho até lá. Apressei o passo. Não tinha idéia do que iria fazer, mas tinha que ver se ela estava em segurança.
Os cachorros das casas latiam, e eu comecei a me arrepender de ter saído de casa. Estava frio, eu estava fraca e com um pouco de fome. Minha respiração estava acelerada e estava com medo. Tinha a impressão de estar sendo seguida. Olhei para todos os lados, mas não tinha ninguém. Parei um pouco; Respirei fundo ,e com o silencio da noite pude ouvir minha respiração. Mas eu não estava sozinha. Tinha certeza que tinha alguém comigo. Virei meu rosto levemente para o lado e vi que estava certa. Parado sobre a cerca de uma casa abandona, estava ele, o gato. Seus olhos estavam fixos em mim e ele não se mexia. Parecia uma estátua. Dei alguns passos para frente, ainda fitando o gato. Ele me acompanhou e andou pela cerca graciosamente. Podia ver raiva em seus olhos. O pêlo de suas costas se eriçou e ele foi abrindo a boca lentamente.
Desviei o olhar e corri. Corri o mais rápido que consegui, sem olhar para traz. Pude ouvir o barulho do gato deixando a cerca e correndo atrás de mim. Ainda faltavam três quarteirões até a casa de Kristie, e não sabia se conseguiria escapar dele. Olhei rapidamente para ver se ele ainda corria atrás de mim, mas não o vi. Corri mais um pouco e depois parei, encostando-me a uma árvore. Olhei novamente para trás e o gato realmente não estava lá. As folhas da árvore balançaram com o vento forte que vinha. Olhei para cima, mas não havia nada. Respirei fundo e continuei andando.
Quando finalmente cheguei onde eu queria, já eram duas e alguma coisa. Fui até a sacada embaixo de seu quarto e liguei para o seu celular. Pude ouvir ele tocando e segundos depois ela atendeu.
- Alie?- sua voz era roca e silenciosa.
- Kris, vai até a sua sacada e me deixa entrar. – sussurrei. Ao lado de sua sacada tinha uma escada, que o pai dela deixara para consertar os suportes de vaso, que estavam presos na parede.
- Como? Onde você esta?
- Vem aqui fora...
Ela abriu a porta e saiu. Acenei para ela e desliguei o celular. Fui até a escada e subi.
- Alie, o que você está fazendo aqui. Olha que horas são! Como você veio, quem te trouxe?
- Calma... eu vim sozinha, eu precisava te ver...
- Precisava.. a eu não acredito nisso. Você é louca ou coisa parecida? Como você sai de casa as duas da madrugada, sozinha e vem bater na minha porta dizendo que precisava me ver! O que a com você? – Ela me puxou para dentro de seu quarto, fechou a porta, ascendeu o abajur e nos sentamos em sua cama.
- Kris, escuta, eu tive um sonho. Sonhei que você... – não queria contar que sonhei com Zac, que ele sugou meu sangue e que queria sugar o dela. – sonhei que você esta em perigo. Eu... eu precisava te ver... ver se você estava bem...
- Alie, Alie, você é muito doida... Foi só um sonho.
- Eu não sei... foi muito real... mas você deve estar certa, deve ter sido só um sonho.
- E você ainda tem duvida? – disse ela sorrindo, com o rosto inchado de sono. – E agora, o que você vai fazer? Daqui a três horas tem aula, e você não pode voltar pra casa assim, sozinha...
- Tudo bem, eu vou do mesmo jeito que vim. Não tem perigo... – para falar a verdade, perigo tinha. Eu havia me esquecido que naquela noite, um homem havia me atacado. A mim e a Joey, e ele ainda estava solto por ai. E aquele gato estranho, que sempre me segue. Está sempre ao meu lado, dês de... bem dês de quando eu briguei com Zac. E nunca mais o vi, exceto nesse sonho de hoje.
- Alie, eu acho melhor eu te levar de carro. Você já se arriscou demais vindo aqui sozinha há essa hora. Você poderia ter encontrado um tarado, pervertido ou psicopata andando por ai e ai sim...
- Eu acho melhor não, seus avós vão brigar com você. – por mim eu aceitava a carona e voltava para casa de cara, sã e salva, longe de qualquer tarado, pervertido ou psicopata. Sem falar naquele gato.
- Olha, se eu falar para eles que eu fui te deixar em casa talvez eles não liguem.
- Ótimo, e você foi me levar para casa por que eu tive um sonho com você, fiquei assustada e vim te vem as duas e meia da manha... me poupe, eles vão te por de castigo.
- Bem, foi exatamente isso que aconteceu, eu não estarei mentindo. E você pode confirmar.
- E de quanto você acha que vale a minha palavra?
- Meus avós confiam em você.
- Eu acho melhor não arriscar. – disse me levantando e indo em direção a varanda.
- Alice! – disse ela segurando o meu braço, mas eu a encarei e ela soltou.
- Fique tranqüila, eu vou ficar bem. – abri a porta e sai. Subi na escada e comecei a descer. Ela parou, se apoiando na sacada e me viu descer. – Até daqui a pouco... – sussurrei. – ela assentiu.
Caminhei por entre as árvores laterais da casa de Kristie e fui para a rua. Já eram três e alguma coisa quando comecei a voltar para casa. Com o passo mais apertado que antes eu praticamente corria rua a fora. Minha respiração pulsava. Estava preocupada com que Kristie havia dito sobre um pervertido me encontrar coincidentemente. Não queria nem pensar sobre o que poderia acontecer.
Peguei outro caminho para voltar,com medo de reencontrar o gato. Mesmo ele podendo estar em qualquer outro lugar. Essa rua me trazia péssimas lembranças. Havia vários becos entre as casas e a rua era silenciosa. Estava rezando para não encontrar ninguém. Mas, minhas preces nunca são atendidas. Entre duas casas antigas, dentro de um beco, avistei uma silhueta masculina e uma que, de onde eu estava me parecia um a de um cachorro. O homem estava agachado sobre o cão e o mesmo estava deitado, soltando gemidos de dor. Naquela hora, tive a impressão de ser o mesmo homem que me atacara naquela mesma noite, mas seria muita coincidência. Meso assim o medo caiu sobre mim como um balde de água fria. Naquela hora não tive forcas para sair dali ou de desviar o olhar. Fitei aquela cena apavorante até o homem perceber a minha presença e levantar o rosto. As luzes da rua iluminaram-no bem e pude reconhecê-lo no mesmo instante.
Com a boca suja de sangue, com os olhos castanhos agora cor de vinho, a pele clara num tom esbranquiçado, pálido, mas ganhando cor com sangue novo correndo em suas veias. Lá estava ele. O homem que naquela mesma noite brigou por mim e me levou para casa em segurança. Na cena mais deplorável que imaginei encontrá-lo. Estava lá. Joey. Agachado, bebendo o sangue de um animal indefeso. Seus olhos se arregalaram ao me ver e ele largou a carcaça no chão.
- Alice !? – sussurrou.
Dei alguns passos para trás, balançando a cabeça não querendo acreditar no que meus olhos viam. Ele estava como Zac em meu sonho. Um vampiro. Ele se levantou rapidamente, limpou a boca com as costas da mão e caminhou até mim, com cautela, tentando não me afugentar.
- Alie, não... não é o que você está pensando...
- Joe... Joey ... você... você é um... um... – lagrimas caíram de meus olhos e eu soluçava.
- Alie, espera, eu posso explicar...
- Você é um.. vampiro!
- Não, eu não sou como você pensa, eu...
Corri. Corri pela rua escura e deserta aos prantos. Não poderia ser verdade, ele não poderia ser um... um matador. Igual ao homem que matou a mulher naquela noite, igual ao Zac em meu sonho. Não! não podia ser. Não o Joey. Olhei para trás para ver se ele me seguia, mas a rua continuava deserta.
- Alie, me deixa explicar... – ele apareceu em minha frente em meio à densa camada de fumaça que começara a se formar pelo chão, como um tapete. Empurrei-o para o lado e corri ainda mais forte que antes.
- Me esquece! – gritei.
- Alie, espera, por favor. – ele apareceu em minha frente novamente, mas desta vez ele me segurou me impedindo de fugir. Ele me olhou com aqueles penetrantes olhos vermelhos, agora perdendo o brilho.
- Me solta! Eu não quero saber de mais nada! – lutei contra seus braços, mas ele era forte demais. Me debati até ficar exausta, mas ele pareceu nem se cansar. – por favor... – disse em tom de apelo. Já não tinha mais forcas para lutar contra ele. Estava jogada em seus braços, contra minha vontade. Mas ele continuou me segurando. Ele me fitou, mas eu não tinha mas coragem de olhá-lo. Ele largou uma das mãos e forçou meu rosto ao encontro do dele. Meus olhos cheios de lágrimas miraram os dele, vermelhos como sangue, e depois se fecharam. Ele se inclinou para frente e seus lábios encostaram-se nos meus.
- Não encosta em mim... – disse me livrando, finalmente, de seus braços.
- Alie, eu.. eu te...
- Não diga mais nada! Eu já vi o suficiente...
- Eu não queria que você tivesse descoberto assim... – disse ele saindo de meu caminho, de cabeça baixa.
- E quando você pretendia me contar? – respirei fundo. – Quando eu tivesse apaixonada por você, ou... ou quando eu fosse o jantar?
- Eu nunca te machucaria... – ele me olhou novamente. Desta vez pude ver uma lágrima cair de seus olhos.
- É melhor eu ir... – disse, começando a andar. Eu precisava colocar as coisas no lugar.
- Está bem... – disse ele se afastando e sumindo entre a neblina.
Continuei andando até chegar em casa. Os minutos passaram rapidamente. Faltavam pouco para as quatro da manha quando cheguei em casa. Entrei silenciosamente e subi as escadas com cuidado. Meus pais ainda estavam dormindo. Fui para o meu quarto e tranquei a porta.
Ascendi à luz do abajur e me deitei na cama. Nessa hora, não consegui me conter. As lágrimas caiam de meus olhos e eu não sabia como conte-las. Joey não era mesmo como os outros, e diferente não era a palavra certa para descrevê-lo. Sua imagem ia e vinha em minha mente. Sua boca ensangüentada, seus olhos vermelhos. Ele parecia ser tão perfeito... mas ele não é. “Eu não queria que você tivesse descoberto assim...” “Eu nunca te machucaria... nunca...” .
- Joey... como posso ter gostado de você... – pensei. – Você foi injusto comigo ao se aproximar de mim, sabendo de nossas diferenças... Eu achei mesmo que você estava gostando de mim... E esse seu jeito misterioso... tudo não passava de uma mascara para esconder sua real natureza...
Chorei... Chorei por quase quinze minutos. Tola, infantil... Certo, ele era um vampiro, mas daí chegar em casa aos prantos e chorar feito uma criança? Tinha que encarar os fatos, se eu realmente gostava dele tinha que aceitar ou então esquecê-lo. As coisas não pareciam muito certas em minha cabeça. Nada parecia ser verdade. Histórias de vampiros sempre existiam, mas eram somente isso... histórias. E eles sempre apareciam como os vilões e acabavam passando para o lado do bem ou... bem, morriam. Mas Joey parecia um bom rapaz. Se ele já estava do lado dos bons então não haveria problema. Mas se existe um vampiro com certeza existem mais, e nem todos deves ser bonzinhos que nem Joey.
Levantei e fui me trocar. Vesti meu pijama e joguei uma água no rosto. O esparadrapo em meu pescoço já estava praticamente descolado e gasto. Arranquei-o e lavei o corte novamente. Estava cada vez pior e mais dolorido. Estava meio arroxeado e o sangue que saia manchou o algodão que grudou em volta do ferimento. Limpei-o e passei um remédio que estava dentro do armário e voltei para o quarto. Deitei-me na cama e apaguei a luz do abajur. Já estava quase amanhecendo e eu tinha aula daqui a mais ou menos três horas, e eu não faltaria por nada. Já havia dito a minha mãe que estava bem antes de ir dormir, ela não ia me obrigar a ficar em casa descansando.
Mas naquela hora eu estava exausta e logo peguei no sono. À noite – ou melhor dizendo a madrugada – passaram muito rápido. Não me lembro te ter sonhado nada, o que era bom, pois há muito ando tendo pesadelos que não me levam a nada. Mas esses sonhos me ajudaram a descobrir quem era Joey. Pelo menos um ponto positivo nessa historia toda.
O despertador soou em meu ouvido, já era de manha e eu estava extremamente exausta. Desliguei-o e cobri a cabeça com meu edredom. Queria continuar deitada, dormindo... Mas tinha que levantar, mesmo com tudo que acontecera noite passada eu teria que levantar... Mesmo por que, eu tinha que ver se Zac iria para a escola depois de todo o tempo que ele faltou e depois daquele sonho. Mas por outro lado teria que ver Joey, e isso não era nada animador. O que eu mais queria era saber que tudo isso fazia parte de um terrível pesadelo, que tudo ainda era como antes e que Joey, Joey humano gostava de mim.
Depois de fazer uma hora na cama levantei e fui me trocar. Logo após me vestir e me arrumar – e de esconder as olheiras com maquiagem – desci e fui até a cozinha tomar o café da manha. Minha mãe havia caprichado e tinha feito minha comida predileta: omelete de ovos e bacon e limonada.
- Bom dia mãe... pai... – estava surpresa em ainda ver meu pai, sentado à mesa comendo. Ele sempre saia antes de mim, antes mesmo de eu acordar, exceto quando ele tinha folga ou quando seu turno começava mais tarde.
- Bom dia filha – disse ele. – como está se sentindo hoje?
- Melhor pai, eu só estou um pouco cansada, com um pouco de sono...
- Bem, era de se esperar, depois da noite que você passou, não é Alie? – disse minha mãe, com a frigideira na mão colocando minha omelete em um prato.
- É, foi uma longa noite para mim...
A mesa ficou em silencio depois disso, cada um com seu prato e seu copo, sem dizer nada. Comi e bebi até me satisfazer, depois me levantei e fui pegar minhas coisas para ir para a escola. Subi as escadas, abri a porta do meu quarto, ascendi à luz e olhei tudo antes de entrar. Estava tudo normal. Meu quarto estava vazio. Peguei meu material e antes de sair dei uma olhada pela janela. Nem sinal do gato. Desci as escadas e fui para a cozinha. Meus pais ainda estavam lá.
- Então eu já vou indo. Até mais tarde. – disse beijando minha mãe e meu pai no rosto.
- Tem certeza que está tudo bem Alie, você parece um pouco pálida. – disse meu pai me olhando com preocupação.
- Não pai, estou bem... – disse saindo da cozinha. Olhei para traz uma ultima vez. Aquela cena nunca fora tão bonita como naquela hora. Meu pai sentado à mesa tomando seu café antes de ir para o trabalho, minha mãe em pé lavando a louça. Uma típica família norte americana. Olhei-os por alguns segundos e parti.
Sai de casa e fui caminhando até o ponto de ônibus. Fiquei pensando... lembrando da noite passada. Tanta coisa em um só dia... sem falar na madrugada. Depois de tudo isso eu não sei como vou conseguir olhar na cara de Joey na classe. Eu estava realmente gostando dele, do que ele aparentava ser por dentro. Mas tudo era mentira. Ele devia estar tentando ganhar minha confiança para depois me comer; Literalmente. Mas eu tinha que me portar normalmente. Ele era um vampiro e eu sabia disso, eu posso ser um perigo para ele. Bem, perigo por que eu podia desmascarar ele, dizer para todos o que ele era. E é isso que eu vou fazer, custe o que custar. Era só esperar o momento certo. Eu já sabia que hoje iria ser difícil. Sentei-me e esperei. Queria ligar para Kristie e conversar. Me distrair... Mas não... eu só conseguia pensar em uma coisa: Eu descobri a verdade.
Capitulo 9
“Ele correu. Correu o mais rápido que pode. Estava disposto a tudo para me salvar...”.
A rua estava silenciosa e o dia estava frio e úmido. O ônibus escolar parou e eu entrei. Não tinha quase ninguém lá, só um menino e uma menina sentados juntos nas ultimas poltronas e mais duas meninas sentadas um pouco à frente, conversando baixo. Sentei-me em uma das primeiras e esperei até chegar à escola. Logo que cheguei me sentei na escadaria e fiquei esperando a hora de entrar para a aula.
Um carro passou por mim e entrou no estacionamento. Devia ser o carro de Kristie, e pelo visto ela não estava muito animada, pois o radio tocava a uma altura suportável. Um ou dois minutos depois ela apareceu e se sentou ao meu lado.
- Oi Kris... – disse meio desanimada. Ela me encarou com um bico forçado.
- Oi Kris? É só isso que você tem a me dizer? – Ela virou e fitou a rua.
- O que é que aconteceu?
- Bem, você aconteceu... Ou você já se esqueceu da sua visitinha inesperada a minha casa hoje?
- Desculpa Kristie, eu estava meio atordoada com a noite que eu tive...
- Noite que você teve? O que é que você fez de tão atordoante que marcou a sua noite a ponto de você se deslocar da sua casa até a minha em plena madrugada, e ainda sem me avisar antes?
- Aconteceu tanta coisa que não daria para eu te contar tudo agora... – antes de contar qualquer coisa eu tinha que ver o que eu poderia ou não dizer a ela – Eu posso ir na sua casa hoje?
- E por acaso você precisa da minha autorização para aparecer na minha casa? Bem, você já provou que não, não é mesmo... – Ela deu um leve riso e continuou – Olha se você quiser você pode jantar lá hoje...
- Claro, ai eu poderia contar tudo que me aconteceu...
- Pergunta para sua mãe se você não poderia dormir lá também... como nos velhos tempos...
- Eu falo com ela e depois eu te ligo.
- Ta bom....
Ficamos em silencio alguns minutos enquanto todos começavam a chegar e encher a rua, até que uma certa pessoa apareceu do outro lado da rua. Ele atravessou e veio ao nosso encontro. Ele me olhou com certa malicia no olhar e se aproximou lentamente.
- Kristie, Alice...
- Zac! Quanto tempo, pensei que avia largado a escola! – disse Kristie, correndo para abraçá-lo, como se o conhecesse há muito tempo.
- Kristie, oi, nossa... – disse ele retribuindo o abraço – Bem, eu só faltei alguns dias, mas já estou de volta.
- O que aconteceu, estava doente?
- Bem, quase isso... E você Alie, como está? – disse ele olhando para mim ainda com malicia no olhar. Uma malicia que eu nunca vira nos olhos dele.
- Estou bem Zac, obrigado...
- Vamos entrar pessoal? – disse Kristie, passando o braço por cima dos ombros de Zac e me forçando a levantar. Caminhamos até os armários em silencio. Ainda não me sentia a vontade perto de Zac. Kristie nos largou e foi pegar seus livros em seu armário. Fiz o mesmo, destranquei meu armário e apanhei minhas coisas.
- Alice... – sussurrou. Sua voz vinha de trás da porta aberta de meu armário. Ele apareceu de repente e eu nem notei ele se aproximando
- Eu já mandei você me deixar em paz. – sussurrei de volta batendo a porta de meu armário com força e indo até Kristie.
- Espera! nós precisamos conversar... – disse ele me segurando pelo braço com força.
- Algum problema Alice? – disse Zac com um tom irônico se aproximando rapidamente de mim e encarando Joey.
- Problema nenhum... – disse ele largando meu braço. – nós ainda vamos conversar... – continuou. Ele me fitou e encarou Zac com raiva. – a sós... – depois saiu. Virei-me para Zac e antes que eu pudesse dizer alguma coisa ele perguntou:
- O que ele queria?
- Nada, é só que... a gente teve uma discussão e... acho que ele queria se desculpar, ou coisa parecida....
- Bem, já que você falou em se desculpar eu... eu queria que você aceitasse as minhas desculpas. Eu não queria ter dito nada daquilo naquele dia, me desculpe...
- Tudo bem...
- Não, sério, eu queria que a gente voltasse a ser... amigos... como antes...
- Zac fica tranqüilo, eu já te desculpei...
- Bom, nesse caso, que tal a gente comemorar a nossa amizade saindo hoje à noite?
- Bem, é que eu tinha marcado de ir à casa da Kris hoje e depois talvez eu durma lá, será que não pode ser outro dia?
- É que eu queria que fosse hoje, não queria adiar isso...
- Então, acho que eu posso ir à casa dela e depois a gente pode marcar de se encontrar, tudo bem pra você?
- Claro... – ele foi interrompido pelo sinal.
- Vamos para sala? – disse Kristie.
- Vamos – fui na frente e entrei na sala.
Após seis aulas e duas provas seguidas já estava na hora de ir embora. Kristie e eu saímos e paramos na escadaria para conversar, enquanto Zac conversava com uns amigos.
- Então eu vou na sua casa as sete, janto lá, a gente conversa e depois Zac e eu vamos sair...
- Tudo bem, eu passo na sua casa para te buscar, mas... será que ele não vai voltar com a história de gostar de você de novo?
- Acho que não, ele disse que queria sair comigo porque ele queria que nós fossemos amigos como antes... e acho melhor ele não insistir com isso de novo, eu gosto dele, gosto muito, mas só como amigo...
Ele saiu de dentro da escola e veio se juntar a nós na conversa.
- Bem, eu já vou indo então – disse Kristie beijando meu rosto e o de Zac e indo para o estacionamento. Minutos depois eu já pude ouvir o som alto de seu radio tocando musicas de rock.
- Já combinou com a Kris para você sair comigo hoje à noite?
- Já, estava falando disso com ela agora mesmo. Eu vou para a casa dela as sete e as nove a gente se encontra...
- Eu te pego na casa dela... é que eu quero te levar em um lugar especial...
- Especial? Eu já estive lá?
- Já, já esteve sim, e eu acho que você se lembra muito bem... – disse ele me olhando maliciosamente novamente. – E o que ouve no seu pescoço? Bem, eu não pude deixar de ver esse...
- Nada de mais. – o interrompi – só um acidente bobo... Então é melhor eu ir indo também, se não eu perco o ônibus...
- Tudo bem, até hoje à noite então...
- Até hoje à noite... - Beijei-o no rosto e sai. Fui a caminho do ponto de ônibus.
Logo que cheguei em casa, fui direto para cozinha. Estava com muita fome. Minha mãe havia caprichado e também havia feito minhas comidas preferidas. Estava começando a gostar desse tratamento cheio de cuidados, minha mãe estava muito mais boazinha do que de costume.
Logo depois de comer fui me deitar. Ainda estava cansada e um pouco fraca. Dormi até quase na hora de ir na casa de Kristie. Levantei-me e fui me trocar. Vesti um jeans bem confortável e uma camiseta bem bonita, afinal, depois eu vou encontrar meu melhor amigo, não quero fazer feio. Ele disse que me levaria em um lugar especial, estava ansiosa para saber que lugar era esse. Uma buzina tocou do lado de fora do meu quarto, e da janela eu pude ver o carro de Kristie. Desci as escadas e fui em direção à porta.
- Ei, ei, onde você pensa que vai mocinha? – disse minha mãe. Ela estava sentada na sala assistindo TV.
- Ahm, mãe, é... eu, eu estou indo para a casa da Kristie...
- Que horas você vai voltar?
- Bem, eu não sei, é que... depois Zac vai me buscar, é que a gente vai sair...
- Você e o Zac... pode ir... – disse ela com um sorrisinho no canto da boca.
- A mãe, não começa... – disse saindo e deixando ela falando sozinha.
Entrei em seu carro e nós saímos.
- E então Alie, preparada para o seu encontro hoje?
- Mais ou menos, estou um pouco preocupada com o que ele vai fazer, ou dizer, e aonde vai me levar...
- Fica tranqüila, ainda tem bastante tempo até ele vir te pegar, por enquanto você tem muitas coisas para me contar.
- Certo... – havia esquecido de pensar no que eu iria dizer para Kristie, o que eu poderia dizer a ela que não piorasse a minha situação com Joey e nem que me deixasse com cara de idiota. Ela deixou o radio ligado, num volume bem alto, como sempre, e isso fez com que a gente não precisasse conversar até chegar a casa dela. Isso me deu tempo de pensar.
Logo que chegamos, a avó dela estava preparando a janta e o seu avô estava na sala, dormindo em uma poltrona com um jornal sobre seu rosto. Subimos para seu quarto e fechamos a porta.
- Bem, você já pode começar... – disse ela, se sentando em sua cama e me puxando para me sentar também.
- Ok, foi assim... – contei toda a história do sonho, cada detalhe, já que era somente um sonho não tinha problema eu contar. Já a historia de Joey e de ele ser um vampiro eu omiti completamente, isso ela não poderia saber. Contei também a historia do gato, não tinha tanta importância. Depois descemos para jantar e logo em seguida subimos novamente. Tinha que terminar a conversa ante que Zac chegasse. Contei também que, voltando da casa dela, encontrei Joey e a gente discutiu. Disse que foi porque ele estava bêbado e tentou me agarrar à força, bem, foi o melhor que eu pude pensar na hora...
Logo que acabei de contar tudo Zac apareceu na porta. Ele estava com o carro de seu pai e estava bonito, mais do que o normal.
- Alie, ele chegou! – disse Kristie, espiando pela janela.
- Ai ai... então, me deseje sorte. – disse levantando e saindo do quarto. Kristie veio logo atrás quase pulando de alegria. Até parecia que era ela que ia sair e não eu. Me despedi de seus avós e fomos juntas até a porta. Ela saiu comigo e acenou para Zac que estava saindo do carro.
- Boa sorte... – ela sussurrou, sorriu para Zac e entrou. Fui até onde ele estava e o cumprimentei com um beijo no rosto. Ele usava um perfume cítrico muito bom.
- Vamos? – perguntou.
- Sim, vamos... – ele abriu a porta do carro para mim e logo que entrei, ele a fechou. Ele deu a volta, entrou e partimos. – Bem, para onde nós vamos?
- Você já vai ver... – ele me olhou e abriu um sorriso malicioso como antes. Isso me deixou um pouco desconfortável, parecia que ele estava planejando algo, e não parecia ser algo bom... não para mim.
O silencio nos envolveu desde a minha ultima pergunta. Ele não falava nada. Não me olhava. Eu mal ouvia sua respiração. Seu olhar continuava fixo em frente. Tudo estava muito escuro do lado de fora do carro, eu não conseguia enxergar nada alem do que os faróis iluminavam. Eu, ao contrário do que ele disse, não me lembro de ter passado por aqui, de conhecer ou muito menos conhecer muito bem.
- Eu... eu não estou reconhecendo aqui... – disse calmamente.
- Calma, você já vai se lembrar... quando chegarmos.
O lugar parecia sombrio. Assustador. A rua agora era cheia de casas velhas e abandonadas e as árvores ladeavam até o fim onde havia logo de encontro o que me pareceu ser um galpão ou um deposito abandonado. Me lembrei de meu sonho . Arrepiei-me. Porque ele me levara ali?
- Chegamos... - ele abriu a porta do carro e deu a volta ara abrir a minha. Sai do carro meio desconfiada.
- Chegamos? – perguntei.
- Sim... vem, vamos entrar.
- Nós vamos entrar ali? – disse apontando para o deposito.
- Você verá...
Fomos juntos até o deposito. A frente tinha um portão de ferro entreaberto por onde passamos. Esse lugar devia estar abandonado há muito tempo. Plantas cresciam por toda parte e tinha vidro empalhado pelo chão, deviam ser das janelas que estavam quebradas. Continuamos andando até a porta. Nela tinha uma corrente presa por um cadeado enorme. Ele simplesmente o virou e a corrente caiu no chão. Ele abriu a porta devagar e depois que entramos ele a fechou. Tudo estava pouco iluminado, mas conseguia ver tudo a minha volta. Tudo me parecia familiar. Pude ouvir os passos de Zac se afastando de mim. As luzes se ascenderam e eu pude ver onde eu realmente estava. O meu sonho, ou melhor dizendo, o meu pesadelo havia se tornado real. O mesmo lugar em que eu estive, com a mesma pessoa. Ouvi ele se aproximando de mim lentamente. Ele parou ao meu lado e me encarou. Ele estava estranho. Nem parecia a mesma pessoa que eu vi minutos atrás. Estava empalidecendo e seus olhos estavam dilatados. Ele afastou meu cabelo que caia sobre o meu pescoço e seu olhar se fixou em meu corte. Tirei rapidamente sua mão de mim e voltei meu cabelo sobre o pescoço. Ele sorriu maliciosamente. Seus dentes eram brancos e pontiagudos. Como em meu sonho. Dei um passo para trás, tentando me afastar dele.
- Está com medo? – disse com o mesmo tom debochado com que disse antes. – Está com medo de mim, Alie?
- Zac... – sussurrei. Zac, você... – lagrimas começaram a cair de meus olhos involuntariamente.
- Shh... não diga nada... – disse ele colocando o indicador sobre meus lábios.
- Zac eu... eu sonhei isso... eu-... – agora eu chorava ainda mais. Chorava incontroladamente. Cobri meus olhos tentando me conter. Olhei-o, mas ele não estava mais lá. Ouvi então o eco de sua voz. Ele ria... Ele ria de mim. Ria do meu medo.
- Zac? – disse, ainda duvidando do que meus olhos viam. Tudo aquilo deveria ser um sonho como antes. – Zac! – gritei. Ele riu ainda mais. Meu desespero o divertia.
- Eu quero você Alice Whitlam... – ele sussurrava.
- Apareça! Apareça agora! – meus gritos alimentavam ainda mais a sua brincadeira. Eu era como um brinquedo, uma peça na qual ele movia para onde quisesse. Eu olhava para todos os lados, mas a escuridão me cegava. Olhei para uma das janelas quebradas. Dela, pude ver o céu estralado e o luar incandescente. Aquela noite era como a de antes, tinha um ar fúnebre e misterioso.
Olhei para baixo rapidamente ao sentir uma respiração vinda de trás de mim. Os seus lábios tocaram meu pescoço num beijo. Uma mistura de pavor e medo me percorreu dos pés a cabeça. Senti sua boca abrir e seus caninos encostarem-se em meu corte. Senti uma dor imensa que paralisou meu rosto, em seguida algo escorreu pelo meu pescoço. Mas eu já sabia o que era. Tateei-o, logo pude sentir o sangue sob meus dedos. Olhei para minha mão e confirmei. Sangue. Podia senti-lo saindo de mim, sendo sugado. Ele passou seu braço em mim me envolvendo, me trazendo ainda mais perto dele. Podia sentir a sua respiração acelerada, agora se normalizando, como a de um animal faminto saciando sua fome.
Ele tirou os dentes do meu pescoço e se afastou. Virei-me e o encarei como antes. Sua boca suja com o meu sangue e seus dentes, ainda mais pontiagudos do que antes me causaram repulsa. Essa cena foi mais repugnante vista pela segunda vez. Tudo isso era como um dejavu. Seus olhos estavam fixos em mim com uma expressão maquiavélica, e tinham um tom avermelhado vivo, que brilhava com a luz da lua. Ele lambeu os lábios e depois os limpou com as costas da mão
- Estava realmente ótimo... – disse ele.
- Você é desprezível... – disse com dificuldade, depois fui cedendo até chegar ao chão. Ele ficou me olhando enquanto eu deitava levemente a cabeça no chão. Meu pescoço ardia e eu estava fraca. A cada segundo que passava eu sentia falta do sangue que ele bebera.
Ele caminhou lentamente até onde eu estava e sorriu.
- Vou ver Kristie agora, não saia daí... – ele sussurrou. Depois as luzes se apagaram e ele sumiu na escuridão. – ou eles o pegaram... - sua voz era um eco apavorante. Lá de fora, podia ouvi uivos de lobos, e eu estava presa aqui. Se eu sair, eles me pegaram...
Pensei em Joey naquela hora. Mas não adiantaria nada. Ele era como Zac, um vampiro. E ele não me convenceu dizendo que não me machucaria. Mas agora não era hora de pensar nele. Eu tinha que sair de lá.
Abri minha bolsa e apanhei meu celular. Tinha que ligar para alguém. Tinha que ligar para Kristie. O telefone chamou mais ela não atendia, mas eu não podia parar de tentar. Liguei de novo e ela atendeu.
- Alie?
- Kristie, me ajuda... – minha voz era fraca. Eu mal conseguia falar direito.
- Alie, o que aconteceu? – disse ela com uma voz aflita.
- Kristie... o Zac... ele é um... – ouvi uma voz do outro lado da linha.
- O que aconteceu com ela?
- Kristie quem está ai?
- Calma, é só o Joey, mas fala o que aconteceu, o que é que tem o Zac?
- Joey? Kristie se afasta dele ele é que nem o Zac!
- Alie, do que é que você está falando?
- Ele é um...
- Alice, onde você está?! – Joey havia pego o telefone de Kristie.
- Se afaste dela, você é como o Zac!- eu forçava minha voz o Maximo que eu conseguia.
- Como o Zac? Como assim?
- Não se faça de desentendido eu...
- Alice? Alice fala comigo.
- Me ajuda, ele me trouxe para um deposito abandonado e... – não estava mais agüentando falar.
- O que ele fez? Ele não te... – comecei a chorar desesperada.
- Ele está indo atrás de Kristie...
- Alie, fica ai, eu vou atrás de você!
- Joey... – o celular caiu da minha mão e eu apaguei por alguns instantes.
***
- Joey, o que ela disse? O que aconteceu com ela? – disse Kristie aflita
- Calma, eu vou atrás dela. Você deve ficar aqui...
- Não! Eu quero ir com você!
- É melhor você ficar aqui, eu vou sozinho, vai ser mais fácil para mim se não tiver ninguém comigo.
- Mas eu quero ajudar...
- Fique aqui, e se o Zac aparecer não o deixe entrar em hipótese alguma, entendeu?
- Sim, entendi...
Joey e Kristie desceram as escadas e ele saiu. Eu estava em perigo e com Zac a solta Kristie também. Joey entrou em seu carro e saiu. Ele se afastou da casa de Kristie e parou o carro. Ele iria a pé. Iria usar seus instintos de vampiro. Ele correu. Correu o mais rápido que pode. Estava disposto a tudo para me salvar...
Capitulo 10
“Ele correu. Correu o mais rápido que pode. Estava disposto a tudo para me salvar...”
Meus olhos se abriram. Eu ainda estava no depósito. Estava fraca demais. Mal me lembrava do havia acontecido depois que Zac partiu. Reuni toda a força que me restara e levantei. Meu pescoço latejava e eu estava suja de sangue. As luzes estavam acesas e eu, aos poucos, começava a examinar o local. Tinha que haver alguma saída. Qualquer uma que me tirasse dali em segurança. Ta bom, segurança... aquele desgraçado tinha planejado tudo. Fui até a porta por onde eu entrei e ela estava trancada. As janelas eram altas demais, então a minha única saída era a porta dos fundos. Mais tentar sair por lá só iria me matar mais rápido. Por enquanto eu só tinha duas escolhas: morrer aqui dentro, ou morrer lá fora. Aqueles lobos enfiavam os focinhos por debaixo da porta tentando me farejar e com suas patas arranhavam-na para tentar abri-la. Só conseguiria sair se eu bolasse um plano mirabolante, como em um filme de ação.
***
Kristie estava deitada em sua cama. A preocupação e o medo a dominavam. Ela mal conseguira falar com Joey e entender o que estava acontecendo. Ele saiu desesperado e havia pedido, ou melhor, imposto a ela que não deixassem Zac entrar. Varias perguntas rondavam sua mente... Será que Zac havia posto tudo a perder? Será que Alice descobriu que Zac era um vampiro? Será que ele havia contado sobre mim?
Ela ouviu batidas vindo da janela. Havia uma silhueta do lado de fora.
- Kristie, abra, me deixe entrar... - sussurrou
- Zac! – disse ela correndo para abrir a janela. – O que aconteceu, Joey saiu daqui atrás da Alice, e ele disse algo sobre você..
Ela o puxou para dentro, fechou a janela e as cortinas.
- Calma, eu não fiz nada de mais, eu só me alimentei um pouquinho dela... – disse com um sorrisinho malicioso no canto da boca.
- Você fez o que? – disse ela o encarando com ferocidade.
- Eu não a matei, só bebi um pouco do sangue dela...
- Seu idiota agora ela sabe que você é um vampiro!
- Fica tranqüila, ela esta presa naquele deposito, não tem como ela sair de lá. E essa hora ela ainda deve estar no chão, fraca demais para levantar. Talvez até inconsciente...
- Então é só isso que você pensou? E ainda prender ela no depósito? Se ela, de repente, abrir alguma caixa, o que você acha que ela vai pensar? E alem do mais, você acha que prender ela ia resolver? Será que você não entende, agora que ela já sabe que você é um vampiro você não vai mais poder se aproximar dela. Você vai ser uma carta a menos no baralho..
- Eu só quis me vingar.. Eu a amava de verdade, e ainda a amo, mais ela preferiu o Raitt...Se ele não tivesse aparecido nós poderíamos estar juntos...
- Isso não importa agora, você já estragou tudo. Do jeito que ele saiu daqui ele já deve saber o que você é...
- E por que ele estava aqui? O que ele queria?
- Ele veio falar comigo... ele sabe quem eu sou, mais pelo que eu percebi ele não me considera uma ameaça.
- Se eu fosse você eu não confiava nele...
- E seu eu fosse você eu não teria feito o que você fez. Depois que ele encontrar a Alice ela vai contar o que aconteceu e ele com certeza virá atrás de você...
- I daí? Eu não tenho medo dele..
- Mais devia, ele é puro sangue, não que nem você, só mais um babaca transformado para formar numero. Ele é muito mais poderoso que você... Depois que ele deixar Alice em seguranças ele virá atrás de você... – ela chegou seu rosto bem perto do dele. – e te matará.
Ele se afastou e foi em direção a janela.
- Não me subestime, eu sou mais forte do que você pensa, posso acabar com ele quando eu quiser... – ele abriu a janela – e com você também... – ela se aproximou dele rapidamente e o agarrou com força.
- Não se atreva a me enfrentar – disse. Ele deu de ombros e saiu.
Kristie fechou a janela, foi até sua cama e se sentou. Ela começou a pensar no que viria depois que Joey me encontrasse. Se ele suspeitaria que ela não era tão boa e inofensiva quanto aparenta ser. Que ele estragasse tudo...
***
Idéias rondavam minha cabeça, mais eu não estava com força suficiente para as por em pratica. Eu não tinha nada para usar, nada para servir de distração para os lobos e me dar tempo de sair. Tinham algumas caixas espalhadas nos cantos e vidro por toda parte, eu teria que usar isso a meu favor.
Estava com medo de que Zac voltasse, ele poderia aparecer a qualquer momento. E Kristie, onde ela estará? Zac disse que iria vê-la, eu não quero nem imaginar o que pode estar acontecendo com ela agora... E Joey, o que ele estava fazendo com ela? Ele pode estar fazendo com a Kristie o mesmo que Zac fez comigo.
Peguei e abri uma das caixas e dentro dela havia um tipo de caixa térmica de metal. E dentro dela haviam bolsas de sangue marcadas com adesivos indicando o tipo de sangue. Em outra das caixas havia vários punhais e espadas. Fiquei horrorizada, de quem poderiam ser essas coisas? Resolvi pegar um dos punhais, caso eu precise mais tarde. Até pensei em usar essas espadas para tentar sair, mais eu não sabia usá-las direito e eu não estava com força o bastante para travar uma luta com esses lobos ferozes e famintos.
Nessa hora tive uma idéia. Eu poderia usar uma dessas bolsas de sangue para atrair a atenção dos lobos para que eu possa sair. Apanhei outro punhal e uma das bolsas e fui para o meio do depósito. Usei o punhal para cortar o plástico e derramei o sangue no chão. Agora era a pior parte: abrir a porta e torcer para que o sangue espalhado no chão chame a atenção deles o bastante para eu poder escapar.
Fui para a atrás da porta dos fundos respirei fundo e a abri. Uma alcatéia de lobos enfurecidos passou correndo por mim e foram direto para o sangue espalhado no meio do depósito. Nessa hora, corri para fora e fechei a porta. Sentei aliviada no chão e respirei com mais calma. Mas infelizmente foi por pouco tempo. Por entre os arbustos um enorme lobo preto saiu em disparada e veio correndo em minha direção. Corri para me levantar mais quando vi o lobo já estava em cima de mim. Suas garras afiadas rasgavam minha pele e eu sentia seus dentes mordendo meu braço. Gritei e me debati, mas não consegui afastar o lobo. Peguei o punhal que estava em meu bolso e o cravei em seu peito. O lobo deu um uivo de dor que ecoou por entres as arvores, ainda mais alto do que os meus próprios gritos. Sua carcaça caiu sobre mim inerte. Empurrei-a para o lado e retirei o punhal. Ao longe pude ouvir mais uivos de lobos. Eles se aproximavam rápido. Levantei-me rapidamente e corri por entre as árvores. Agora estava mais fraca do que antes. Meus braços estavam arranhados e sangravam muito. Os lobos estavam se aproximando cada vez mais de mim. Eu podia ouvir o barulho de patas rápidas e ágeis passando por cima das folhas secas das árvores. Eu corria cada vez mais, entrava cada vez mais dentro da floresta. A mesma floresta do meu sonho. E meus braços, eles estavam machucados... machucados como no meu sonho. Parece que todos os meus pesadelos estão se tornando realidade...
Eu não estava mais agüentando correr. A noite havia esfriado muito. Podia ver o ar gelado saindo da minha boca enquanto eu respirava. Olhei para mim mesma por um instante. Estava com a mesma roupa que estava no meu sonho. Jeans, tênis e minha camiseta branca de manga comprida. A minha preferida, e estava completamente suja e cheia de sangue. Sem contar que ela não é mais de manga comprida...
Agora minha cabeça começara a doer. Devia ser pela grande quantidade de sangue que eu perdi.. Meu ritmo começava a diminuir involuntariamente. Eu queria correr, queria correr o mais depressa que eu conseguisse, mais eu não comandava mais minhas pernas. A minha visão começara a escurecer. Estava a ponto de desmaiar. Mais ele apareceu. Joey. Ele chegara aqui tão rápido que mal pude ver de onde ele veio. Ele pegou-me rapidamente n colo e correu tão depressa que o vento parecia cortar ainda mais meus braços. Mais eu me sentia segura agora. Mesmo sabendo o que ele era. Tudo foi ficando escuro e então apaguei.
Abri os olhos varias vezes enquanto ele me trazia. Mais eles não permaneciam abertos por mais do que alguns segundos e logo se fechavam. Mesmo durante o tempo em que fiquei desmaiada eu não consegui descansar. Só quando ele me deitou em uma cama eu pode realmente relaxar. Minha força começava a voltar. Meus braços não doíam tanto. Eu consegui ver quando algumas moças, camareiras eu acho, me trocaram. Elas me vestiram com uma camisola bem macia e confortável. Depois elas colocaram algo nos meus braços que aliviou a dor. Elas também colocaram no meu pescoço, no lugar onde Zac avia mordido. Depois eu voltei a dormir. Agora eu não estava mais sentindo dor e nem fraqueza. Eu estava bem.
Capitulo 11
“Ele sorriu novamente e saiu. Agora eu dormiria sossegada. Amanhã eu vou voltar para casa. Mesmo que nada seja como antes... Fechei os olhos e adormeci.”
Quando eu realmente acordei pude reconhecer onde eu estava. O mesmo quarto do meu sonho. Tinha uma pequena mesa ao meu lado e um armário perto da porta. As janelas estavam cobertas por uma enorme cortina vermelha. Em cima da mesa pedia ver uma vela acesa. Sua luz iluminava todo o quarto. Mais dessa vez não havia ninguém alem de mim. Levantei-me. Pude ver a camisola branca de seda que as camareiras me vestiam. Era linda e confortável, mais não era exatamente do meu tamanho. Levantei, calcei uma sapatilha que estava do lado da cama e fui até o guarda- roupa. Dentro haviam vários vestidos. Peguei um deles. Era tão bonito, de um vermelho vivo. Como um vestido de uma princesa. Deveria ser da verdadeira dona do quarto.
Ouvi passos se aproximando do quarto. Fechei a porta do guarda-roupa e corri para a cama, fechei os olhos e fingi que ainda dormia. Por entre as pálpebras vi que era somente um homem. E olhando mais atentamente eu podia reconhecer suas feições. Era Joey. Abri os olhos lentamente enquanto o via ir em direção a janela e abrir as cortinas. Ainda era noite. As estrelas brilhavam no céu. E a lua, ela estava extremamente brilhante e sua cor era de um vermelho brilhante. Joey olhou-a com uma expressão vaga, mais podia sentir uma certa raiva em seu olhar. Ele fechou as cortinas novamente e veio até onde eu estava.
- Como está se sentindo? – disse ele se sentando na beira da cama.
- Estou melhor... meus braços não doem, e meu pescoço, bem... – dei uma pausa. Eu mal sabia o que dizer.
- Que bom que está bem... – ele evitava me olhar nos olhos.
- Estou bem graças a você... – disse em quanto me sentava. – eu... eu queria agradecer...
- Não foi nada, só fiz o meu dever...
- Dever?
Ele permaneceu calado.
- O que estava fazendo na casa da Kristie?
- Eu só estava... bem, só queria saber se você estava bem. Eu estava meio desconfiado de Zac...
- Você já sabia o que ele era? Bem, você consegue saber quem é vampiro e quem não é?
- Sim... e ele não é o único. Mais isso não vem ao caso. Ele não parecia ser um vampiro do... bem.
- Do bem... – eu o olhei fixamente mais ele manteve seu olhar fixo ao chão. - E você, é um vampiro do bem?
- Será que você ainda não descobriu?
- Bem eu...
- Você não confia em mim. Por que? Será que você não percebeu que eu nunca a faria mal.
Agora ele me olhara nos olhos. E eu não pude dizer nada. Ele nunca fez nada de mal para mim, mais pelo contrario, ele me salvou. Duas vezes.
- Bem, você me salvou, então eu tenho que agradecer... – ele permaneceu calado. Ficamos em silencio alguns minutos.
- Quantos de você existem por ai? – perguntei.
- Muitos.
- Todos são como você, digo, vampiros do bem?
- Infelizmente não. E o numero de vampiros... do mal vem crescendo cada vez mais. – disse ele olhando para a janela.
- E isso tem alguma coisa a ver com a cor da...
Ele se levantou e foi até a janela novamente.
- Cada vez que um vampiro novo “nasce” a lua fica avermelhada. E de uns tempos pra cá a maioria das noites a lua fica assim. E isso não é nada bom.
- E como um vampiro “nasce”? Eu pensei que era só preciso morder... – ele riu.
- Não, se fosse assim, há essa hora você já seria uma vampira, não acha? Para se tornar um vampiro tem que trocar sangue com um, e depois... morrer.
- Foi assim que você se tornou um vampiro?
- Na verdade eu nasci assim.- Não tive a mesma sorte que você. – sussurrou.
- Mesma sorte que eu?
- Esqueça o que eu disse, você não esta totalmente recuperada. É melhor descansar
- Esta bem... – disse voltando a me deitar. Ele saiu do quarto. Em seguida entrou uma camareira. Ela segurava alguns cobertores, e logo que entrou colocou um sobre mim. Ela aparentava ter uns dezessete ou dezoito anos, não mais que isso.
- Boa noite senhorita Whitlam, como está se sentindo?
- É... bem, eu, eu estou bem...
- Os ferimentos? Creio que já estão cicatrizando.
- Sim, eu já não sinto mais nada.
- Que ótimo...
- Onde eu estou?
- Você está em Washington, na antiga casa de seus... digo, na antiga casa do senhor e da senhora Masclet.
- Por que me trouxeram para cá. Por que não me levaram de volta pra minha casa?
- O senhor Raitt a trouxe aqui para sua própria segurança... Ele ligou para a senhorita Gere e pediu a ela que ligasse para seus pais e avisasse que dormiria lá. Para despreocupá-los de sua ausência.
- Ela está bem?
- Sim, ela disse que ligaria depois para falar com a senhorita.
- Ela já ligou?
-Ainda não, mas quando ela ligar eu virei aqui lhe avisar.
- Obrigado. – fiz uma pausa enquanto ela ajeitava o quarto.- E... de quem é esse...?
- Esse quarto? Bem esse era o quarto da senhora Masclet.
- Era?
- Sim, infelizmente a senhora Masclet.
- Ah, sinto muito... Bem, sem querer me intrometer, mas as roupas no guarda-roupa... eram dela?
- Sim, bem, nos ainda as guardamos, para quando a senhorita Masclet retorne.
- Retorne?
- Essa uma longa história, quem sabe o senhor Raitt possa contá-la para a senhora outra hora - a moça não esperou a minha próxima pergunta e foi em direção a porta.
- Agora descanse. – ela sorriu para mim e então saiu.Mais sempre me mandam descansar. Eu já estou melhor...
Sozinha de novo, eu comecei a pensar. Como eu consegui sonhar com o que está acontecendo agora? Ou será que tudo isso é só mais um dos meus sonhos? Eu estava muito confusa. Levantei-me novamente e fui até a janela. Abri cuidadosamente as cortinas. A lua inda estava vermelha, mais um tom um pouco mais claro. Eu devia estar no terceiro ou quarto andar, por que podia ver toda a cidade. Washington... Acho que eu nunca deveria ter saído daqui. Se eu nunca tivesse me mudado para West Orange eu não teria conhecido Joey, nem Zac, e eu estaria em casa agora e em completa segurança...
- Deveria estar descansando... – disse Joey.
- Você deveria ter batido antes de entrar... O seu incrível poder de chegar sem que eu perceba já está me incomodando. – fechei as cortinas.
- Ah, me desculpe por ser um vampiro... – ele fechou a porta do quarto e se aproximou. – Eu também não queria ser o que sou, mais eu aprendi a aceitar... você deveria aprender também...
- Aprender a te aceitar?
- Aprender a aceitar o que eu sou... você não sabe, mais eu e Zac não somos os únicos vampiros em sua vida...
- Ah, tem mais? O que vem agora, duendes, fadas, gnomos. Quem sabe o Pé Grande me faça uma visita um dia desses... – ele riu.
- Muito engraçado... Você brinca, mas tem muito mais sobre a sua historia que você ainda não sabe...
- E você sabe?
- Porque toda a vez que eu entro aqui a gente não consegue conversar civilizadamente?
- E porque você sempre vem aqui, diz um monte de coisas, tudo pela metade, e ainda me manda descansar?
- Porque eu tenho a mania de te dizer coisas demais...
- O que mais eu preciso saber que eu ainda não sei?
- Muita coisa, mais não posso dizer... não agora, você tem que se recuperar e aos poucos eu vou te dizendo...
- Por que, eu já estou melhor... Anda, diga tudo que diz respeito a mim... – ele se sentou na cama, e em seguida eu me sentei também.
- Alie, eu realmente acho que você tinha que saber, saber de tudo que aconteceu, do que está acontecendo e do que vai acontecer. Mais por enquanto terá que ser assim, pelo seu próprio bem...
- Olha, você pode ser um vampiro e tudo mais, mais a gente se conhece há muito pouco tempo... Como você pode saber coisas sobre mim que nem eu sei? E por que você não pode me levar para casa agora? Zac ainda está atrás de mim?
- Você não vai compreender Alice, mais agora você terá que tomar cuidado. Você, sua família, todos não estão mais seguros, você viu que Zac fez com você, e isso não será diferente com seus pais, ou até mesmo com a Kristie. Eu mandei alguns vampiros guardarem a sua casa, eles estarão salvos lá... E você trate de não andar pra lá e pra cá a noite, é ainda mais perigoso...
- Não tem nada que eu possa fazer para parar Zac? Ou agora eu vou ter que me trancar em casa com medo? Eu não vou conseguir viver assim...
- Você não tem outra escolha. Algo de muito ruim está acontecendo e Zac está envolvido. Ele já provou isso, você não viu o estado que você estava na floresta quando te encontrei. Ele não vai medir esforços para te tirar do caminho...
- Mais o que eu fiz? Porque eu estou envolvida nisso tudo?
- Eu já disse, eu não posso te contar, mais quando puder eu prometo, você saberá de tudo. Agora não importa o que seus pais vão pensar, você vai ter que fazer com que eles tomem cuidado também, se seus pais forem pegos, será ainda mais fácil chegar até você...
- Mais o que eu vou dizer para eles, e se Zac ir a minha casa em quanto eu não estiver lá?, minha mãe gosta dele, com certeza ela o deixará entrar e sabe lá o que pode acontecer...
- Você terá que tentar falar com ela, mais de qualquer jeito, sempre terá alguém para impedir que Zac se aproxime.
Ele me olhou nos olhos. Ele queria que eu confiasse nele.
- Quando eu vou voltar para casa?
- Bem, amanhã nós vamos voltar para West Orange. Vamos passar na casa de Kristie antes, ela ficou muito preocupada e acho que podemos confiar nela.
- Ela ainda não ligou?
- Não, eu liguei para ela horas atrás. Para ela ligar para seus pais e avisassem que dormiria por lá. Fique tranqüila, quando ela ligar eu aviso.
- Esta bem...
- Agora durma, amanhã você voltará para casa...
Assenti com a cabeça. Ele se aproximou de mim, ajeitou meu cobertor e me beijou no rosto. Olhei em seus olhos e sorri. Ele retribuiu o sorriso e caminhou até a porta.
- Joey! – disse. Ele olhou para trás. – Eu confio em você...
Ele sorriu novamente e saiu. Agora eu dormiria sossegada. Amanhã eu vou voltar para casa. Mesmo que nada seja como antes... Fechei os olhos e adormeci.